quinta-feira, 26 de maio de 2011

PONTO CEGO

Saio de casa atrasada e o trânsito está lento. Justo hoje com o novo advogado chegando! Mais uma noite destas e não consigo nem levantar da cama. E estas olheiras, parecem uns aros de coruja velha! Acordo várias vezes à noite com um aperto urgente no peito, feito trovão prenunciando tempestade; sem ar, sinto minha robustez se transformando em uva-passa, murcha de qualquer desejo. O que é que está acontecendo comigo? Será assim então? Vamos, vamos, anda logo. Algum tempo depois, chego finalmente à sala de reuniões, quinze minutos atrasada, a terceira vez esta semana. Tento inutilmente não chamar muita atenção, sentando-me na primeira cadeira disponível ao redor da mesa. Assim que me vê, o presidente faz questão de pontuar minha chegada, ou meu atraso, interrompendo a reunião:

-                     Dra. Irene, este é o Dr. Vitor que vai trabalhar conosco.

Olhares impiedosos cobram uma justificativa e minhas entranhas gemem acuadas em busca de uma resposta. Tento me controlar. Levanto-me da cadeira, estendendo-lhe a mão. Ele não reage, continua de lado, voltado para o presidente no final da mesa; lembro-me de que preciso falar alguma coisa se quiser ser notada por ele.

-                     Seja bem-vindo, Dr. Vitor - digo-lhe num tom mais alto, como se ele não pudesse ouvir!

Agora sim ele vira o rosto para mim, estende sua mão e agradece o cumprimento:

-           Muito obrigado, Dra. Irene.

Fico totalmente desconcertada por este ser dionisíaco. Quem é este homem? Tudo nele, os cabelos negros aveludados, a pele morena queimada, o corpo jovem, a voz vibrante, a mão solícita, e principalmente os olhos cegos, revelam inesgotáveis possibilidades de vida. Sinto uma forte tontura seguida de uma onda de calor das grandes, agora não! O chão se abre feito vulcão que desperta depois de um longo descanso. Seus olhos me despem de tudo que conheço como sendo meu e me vejo sem palavras. Sem palavras e sem roupa! Nua, é isso mesmo - percebo chocada que estou completamente nua. Cubro-me logo como posso, com as mãos. Olho em volta e ninguém parece ter notado nada. Abro e fecho os olhos. Continuo nua. Sento-me encolhida sem perder tempo. 

A reunião continua. O suor escorre meu pescoço abaixo. O ar condicionado deve estar desligado. Procuro um lenço de papel para me enxugar. Começo a me abanar. O que vou fazer? Os casos da semana são discutidos e penso em dar minha opinião experiente como de costume, mas fico imobilizada. Agora estou em águas desconhecidas. Como será que ele vai me julgar?  Pela minha voz, meu perfume, minha energia?  Não quero arriscar. Estou vazia, feito pele velha de cobra, abandonada no passado. Sinto um desejo irremediável de ser tocada por ele, como se a minha existência dependesse desta impressão digital. Levanto-me e sigo em sua direção. Já não sinto tanto calor. Assim que chego ao seu lado ele vira-se para mim e, sem nenhuma palavra, começa a passar as mãos no meu rosto. Seus dedos me analisam com cuidado, como se procurassem uma valiosa imagem perdida.  No seu tato firme, sinto as linhas da minha vida se ligando como pontos fragmentados de um mapa antigo, cujo tesouro é desvendar o enigma da longevidade.

Um vento fresco acaricia meu rosto, abro os olhos, algumas pessoas estão à minha volta me abanando.

-           A senhora está bem Dra. Irene? O que aconteceu?

            Levanto-me e lá estão os olhos negros. Respondo com renovada tranquilidade:

-           Foi um mal-estar passageiro, nada importante. Podemos continuar a reunião. Tenho um caso muito interessante para o Dr. Vitor.

   

quarta-feira, 25 de maio de 2011

PROFESSORA DISSECADA

Depois de dez anos da mais honesta comunhão com a profissão, Tatiana acreditava estar preparada para todo tipo de situação. Ainda assim, vez ou outra, o inusitado lhe desafiava tal crença.
Estava Tatiana passando pelo pátio durante o recreio da manhã, quando pensou ter ouvido uma vozinha misteriosa, quase como um sopro rouco, lhe chamando:
- Mommy.
Virou-se surpresa, e por alguns segundos não soube o que responder. Ficou furtivamente envaidecida por Carol gostar tanto dela a ponto de chamá-la de mamãe! Aqueles olhos enormes esperando sua reação encheram seu coração de pena. A pequena até se parecia com ela, o mesmo cabelo liso, o jeitinho manso de falar... Mas não, não era sua filha! Recompôs-se e, rapidamente, buscou uma resposta apropriada para a situação na sua caixinha de respostas-politicamente-corretas. Para Tati, trabalhar com as crianças e entendê-las era como montar um quebra-cabeça. As peças vinham de várias caixinhas diferentes, catalogadas dia-a-dia, criança-a-criança.
- Mas você já tem um pai e uma mãe muito legais.
Mal completou a frase e se deu conta de que podia ter falado algo muito perigoso. E se não fossem legais? E se fossem ausentes ou agressivos? Agora aquela pobrezinha, que confiava nela como sua própria mãe, iria pensar que pessoas legais são as que maltratam e, quem sabe até, da próxima vez que fosse vítima de alguma atrocidade, era capaz de ainda agradecer. Sem palavra alguma, Carol arregalou mais os olhos e levantou os bracinhos à sua frente, como se estivesse pedindo um abraço ou fosse entrar num transe sonâmbulo. Tati tentou consertar:
- Você é minha aluna e adoro ser sua professora, mas não sou sua mãe. Tenho uma filha, e não é você.
Os dentinhos separados desapareceram e, decepcionada, Carol desarmou os braços. Tati tinha certeza que a aluna iria começar a chorar. Mas quem sofria mesmo era Tati que não conseguia encontrar um jeito de sair daquele lamaçal - quanto mais caminhava, mais se atolava.
- Não, não, por favor, não fique assim, não é que você não pudesse ser minha filha, até poderia... Quer dizer, não, não poderia... Olha, você não gosta de sair com a mamãe, fazer comprar, viajar? Quando ela vem te buscar na escola, vocês não param no shopping para tomar um sorvete, ir ao cinema juntas?
- É meu motorista que vem me pegar na escola e, quem me leva no shopping é a minha babá, respondeu Carol sem entender bem porque a professora queria saber tudo aquilo.
- ...A mamãe trabalha? Continuou Tati reticente.
- Não!
Ah, então ela devia ser uma daquelas mães que não quer saber dos filhos, deduziu prontamente Tati, tirando esta peça da caixinha das mães-que-não-estão-nem-aí. Em seguida, concluiu o óbvio - que provavelmente passava mais tempo com Carol do que a própria mãe. Como pode alguém não gostar de uma coisinha tão linda assim, perguntou-se Tati, cheia de pena outra vez. A essa altura, já não queria nem perguntar pelo pai, provavelmente um executivo sem tempo ou quem sabe até um daqueles pais separados que nem se lembrava mais da filha, peça da enorme caixinha das famílias-desfeitas. Foi Carol quem foi falando:
- Mas quando meu pai voltar de viagem, nós vamos ao shopping para comprar um celular novo para mim.
Como assim celular novo, e criança dessa idade precisa de celular? E novo ainda? Quer dizer que já teve outro? Tati já ia buscando outra peça na caixinha do consumismo-alivia-culpa, quando a voz de outra criança chamou sua atenção:
- Mummy. Ouviu a voz grave e trêmula de um menino mais adiante.
E mais outra menina repetindo a mesma palavra. Eles iam ziguezagueando com os braços levantados atrás dos outros que andavam com os olhos fechados. Se uma múmia se encostasse à outra criança, esta, por sua vez, também viraria múmia e passaria a caçar.
Mumificada, Tatiana percebeu que ainda não tinha peças nesta caixinha.