domingo, 24 de abril de 2011

PRÓXIMA PARADA: PURGATÓRIO

Estação da Sé às sete da manhã. É gente para tudo quanto é lado, fila para comprar bilhetes, fila para passar pela catraca e outra fila para entrar no trem. Ótimo, é assim mesmo que gosto de tomar a linha vermelha do metrô: em dia de semana, no verão, no horário de pico. Um verdadeiro Purgatório urbano, receita infalível para se livrar de qualquer culpa por bens ou confortos recentemente adquiridos ou por qualquer pecadilho que tenha cometido.

Tem gente que prefere pechinchar na 25 de Março na véspera de natal ou assistir à uma partida do Corinthians e Palmeiras na geral debaixo do sol ou andar de bicicleta no Ibirapuera domingo de manhã ou ainda passar o carnaval numa praia de Santos. Tudo, tudo Purgatório. É questão de gosto ou necessidade. Para mim, o metrô, uma vez por mês, é normalmente o suficiente. Mas depois que comprei carro com ar condicionado e direção hidráulica, precisei aumentar para uma viagem a cada duas semanas para obter o efeito desejado. Também levo meu filho à aula de guitarra de metrô uma vez por semana. Mas como é na linha verde e no contra-fluxo não conta como crédito, mas sim para garantir seu aprendizado.

Com tanta gente atrás de você, todos desesperados para embarcar, esperar nas plataformas pode ser um pouco amedrontador. Neste momento, é preciso manter a calma e persistir. Ainda mais agora que há um funcionário a cada porta supervisionando o pessoal. Não chegam a ser como os guardas de luvas brancas do metrô japonês, mas dão uma organizada na bagunça e garantem que ninguém vai se jogar ou ser jogado na frente do trem.

Lugar garantido dentro do metrô, você procura se segurar em alguma coisa. Com sorte alcança alguma alça. Senão, é só se encaixar entre as pessoas e se deixar levar. Às vezes o trem fica parado alguns minutos em uma estação devido a uma falha no sistema, problema no trilho, tempestade na cidade, ou algum outro tipo de contratempo. Boa oportunidade para conhecer melhor seus vizinhos, aperfeiçoar seu olfato e desintoxicar os poros.

Primeiro, você segura a bolsa ou mochila à sua frente, tenta resguardar o traseiro e olha para todos os lados para certificar-se de que ninguém oferece perigo imediato. A etapa seguinte já permite uma análise mais minuciosa dos cortes de cabelo, roupas, idades, hábitos esportivos, profissões, perfumes e hálitos dos companheiros de trem. Às vezes pode surgir alguma conversa indesejável entre os passageiros, pergunta ou reclamação. Más é muito mais produtivo guardar seus pensamentos para você.

Entre uma estação e outra há algum remanejamento, uns poucos saem, muitos entram e você aproveita toda e qualquer oportunidade para otimizar sua experiência. Se der azar de alguém se levantar perto de você, tente doar o assento de qualquer maneira. Mas se não der jeito mesmo de recusar, aí você senta e oferece para pegar tudo que é bolsa e mochila à sua volta. Se for dia de chuva, pega guarda-chuva molhado também. Com sorte, logo entrará algum idoso ou mãe com criança de colo e você se levanta novamente.

Melhor mesmo é dar lugar para deficiente físico ou visual. Semana passada meu filho e eu fizemos uma ótima viagem na linha verde. O trem vinha bem cheio e ficamos em pé. Ele estava encostado na barra lateral junto à porta quando ela se abriu e um cego entrou. Não precisei dizer nada, ele cedeu seu lugar imediatamente. Algum espertinho ainda tentou se levantar, mas o cego não quis, ia descer logo. Pude ver pelo sorriso de satisfação e alívio do meu filho que ele tinha aprendido direitinho a lição e que tinha aprontado alguma durante a semana.