sábado, 26 de março de 2011

Madona Partida

Abri a porta, os meninos estavam procurando alguma coisa no chão, uma base, base de quê, perguntei. Voltaram os olhares para a mesa e lá estava ela, minha madona, uma trinca enorme em seu pescoço separando-a em duas partes. Pelo corte transversal saiam várias outras trincas pequeninas que arruinavam minha pequena para sempre. Peguei-a com pressa em minhas mãos como quem socorre uma vítima gravemente acidentada. Mas era tarde demais, não havia nem remédio nem reparo que desse jeito nela. Cabeça decepada do corpo, corpo arrancado da base, totalmente sem chão e sem destino. Segurava sua cabecinha em uma mão e o corpinho na outra sem saber o que fazer com ela ou comigo. Minha vontade era chorar. Jogando futebol na sala! O que é que vocês estavam pensando? Nunca mais! Estão me ouvindo? Nunca mais! E justo a estátua da tia Simone. Gritei, xinguei, me fechei no quarto, não jantei, e triturei meus dentes numa noite muito longa, sem nenhuma lágrima e sem nenhum conforto, nenhum. E ainda ia ter que pedir que me pedissem desculpas! Na manhã seguinte, assim que abri os olhos, dei logo com ela ainda em cima da estante do meu quarto. Pronto, minha tristeza acordou também. Mas a gente não sabe conviver com a tristeza, fica logo querendo entendê-la e livrar-se dela o mais rápido possível, antes que vire depressão. Pensei na arte partida, no presente da irmã artista perdido, na madona eu perdida, na partida dos meninos, e em tudo que era inquietação do dia, de onde é que vinha aquela melancolia? Podia ser tudo e nada. Então, o jeito era ficar triste. Fui seguindo meu dia, fazendo tudo muito devagar, meio que espiando aquela névoa espessa. Tomei o ônibus para trabalhar, e assim que me sentei, peguei meu caderninho e comecei a escrever. Uma página depois, senti meus olhos úmidos. Coloquei os óculos escuros, encostei a cabeça na janela e fiquei ali, meia hora da mais triste paz. Só emoção, sem pensar. Depois voltei a pensar de novo, mas quem sabe agora no novo.