quarta-feira, 25 de maio de 2011

PROFESSORA DISSECADA

Depois de dez anos da mais honesta comunhão com a profissão, Tatiana acreditava estar preparada para todo tipo de situação. Ainda assim, vez ou outra, o inusitado lhe desafiava tal crença.
Estava Tatiana passando pelo pátio durante o recreio da manhã, quando pensou ter ouvido uma vozinha misteriosa, quase como um sopro rouco, lhe chamando:
- Mommy.
Virou-se surpresa, e por alguns segundos não soube o que responder. Ficou furtivamente envaidecida por Carol gostar tanto dela a ponto de chamá-la de mamãe! Aqueles olhos enormes esperando sua reação encheram seu coração de pena. A pequena até se parecia com ela, o mesmo cabelo liso, o jeitinho manso de falar... Mas não, não era sua filha! Recompôs-se e, rapidamente, buscou uma resposta apropriada para a situação na sua caixinha de respostas-politicamente-corretas. Para Tati, trabalhar com as crianças e entendê-las era como montar um quebra-cabeça. As peças vinham de várias caixinhas diferentes, catalogadas dia-a-dia, criança-a-criança.
- Mas você já tem um pai e uma mãe muito legais.
Mal completou a frase e se deu conta de que podia ter falado algo muito perigoso. E se não fossem legais? E se fossem ausentes ou agressivos? Agora aquela pobrezinha, que confiava nela como sua própria mãe, iria pensar que pessoas legais são as que maltratam e, quem sabe até, da próxima vez que fosse vítima de alguma atrocidade, era capaz de ainda agradecer. Sem palavra alguma, Carol arregalou mais os olhos e levantou os bracinhos à sua frente, como se estivesse pedindo um abraço ou fosse entrar num transe sonâmbulo. Tati tentou consertar:
- Você é minha aluna e adoro ser sua professora, mas não sou sua mãe. Tenho uma filha, e não é você.
Os dentinhos separados desapareceram e, decepcionada, Carol desarmou os braços. Tati tinha certeza que a aluna iria começar a chorar. Mas quem sofria mesmo era Tati que não conseguia encontrar um jeito de sair daquele lamaçal - quanto mais caminhava, mais se atolava.
- Não, não, por favor, não fique assim, não é que você não pudesse ser minha filha, até poderia... Quer dizer, não, não poderia... Olha, você não gosta de sair com a mamãe, fazer comprar, viajar? Quando ela vem te buscar na escola, vocês não param no shopping para tomar um sorvete, ir ao cinema juntas?
- É meu motorista que vem me pegar na escola e, quem me leva no shopping é a minha babá, respondeu Carol sem entender bem porque a professora queria saber tudo aquilo.
- ...A mamãe trabalha? Continuou Tati reticente.
- Não!
Ah, então ela devia ser uma daquelas mães que não quer saber dos filhos, deduziu prontamente Tati, tirando esta peça da caixinha das mães-que-não-estão-nem-aí. Em seguida, concluiu o óbvio - que provavelmente passava mais tempo com Carol do que a própria mãe. Como pode alguém não gostar de uma coisinha tão linda assim, perguntou-se Tati, cheia de pena outra vez. A essa altura, já não queria nem perguntar pelo pai, provavelmente um executivo sem tempo ou quem sabe até um daqueles pais separados que nem se lembrava mais da filha, peça da enorme caixinha das famílias-desfeitas. Foi Carol quem foi falando:
- Mas quando meu pai voltar de viagem, nós vamos ao shopping para comprar um celular novo para mim.
Como assim celular novo, e criança dessa idade precisa de celular? E novo ainda? Quer dizer que já teve outro? Tati já ia buscando outra peça na caixinha do consumismo-alivia-culpa, quando a voz de outra criança chamou sua atenção:
- Mummy. Ouviu a voz grave e trêmula de um menino mais adiante.
E mais outra menina repetindo a mesma palavra. Eles iam ziguezagueando com os braços levantados atrás dos outros que andavam com os olhos fechados. Se uma múmia se encostasse à outra criança, esta, por sua vez, também viraria múmia e passaria a caçar.
Mumificada, Tatiana percebeu que ainda não tinha peças nesta caixinha.


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