quinta-feira, 26 de maio de 2011

PONTO CEGO

Saio de casa atrasada e o trânsito está lento. Justo hoje com o novo advogado chegando! Mais uma noite destas e não consigo nem levantar da cama. E estas olheiras, parecem uns aros de coruja velha! Acordo várias vezes à noite com um aperto urgente no peito, feito trovão prenunciando tempestade; sem ar, sinto minha robustez se transformando em uva-passa, murcha de qualquer desejo. O que é que está acontecendo comigo? Será assim então? Vamos, vamos, anda logo. Algum tempo depois, chego finalmente à sala de reuniões, quinze minutos atrasada, a terceira vez esta semana. Tento inutilmente não chamar muita atenção, sentando-me na primeira cadeira disponível ao redor da mesa. Assim que me vê, o presidente faz questão de pontuar minha chegada, ou meu atraso, interrompendo a reunião:

-                     Dra. Irene, este é o Dr. Vitor que vai trabalhar conosco.

Olhares impiedosos cobram uma justificativa e minhas entranhas gemem acuadas em busca de uma resposta. Tento me controlar. Levanto-me da cadeira, estendendo-lhe a mão. Ele não reage, continua de lado, voltado para o presidente no final da mesa; lembro-me de que preciso falar alguma coisa se quiser ser notada por ele.

-                     Seja bem-vindo, Dr. Vitor - digo-lhe num tom mais alto, como se ele não pudesse ouvir!

Agora sim ele vira o rosto para mim, estende sua mão e agradece o cumprimento:

-           Muito obrigado, Dra. Irene.

Fico totalmente desconcertada por este ser dionisíaco. Quem é este homem? Tudo nele, os cabelos negros aveludados, a pele morena queimada, o corpo jovem, a voz vibrante, a mão solícita, e principalmente os olhos cegos, revelam inesgotáveis possibilidades de vida. Sinto uma forte tontura seguida de uma onda de calor das grandes, agora não! O chão se abre feito vulcão que desperta depois de um longo descanso. Seus olhos me despem de tudo que conheço como sendo meu e me vejo sem palavras. Sem palavras e sem roupa! Nua, é isso mesmo - percebo chocada que estou completamente nua. Cubro-me logo como posso, com as mãos. Olho em volta e ninguém parece ter notado nada. Abro e fecho os olhos. Continuo nua. Sento-me encolhida sem perder tempo. 

A reunião continua. O suor escorre meu pescoço abaixo. O ar condicionado deve estar desligado. Procuro um lenço de papel para me enxugar. Começo a me abanar. O que vou fazer? Os casos da semana são discutidos e penso em dar minha opinião experiente como de costume, mas fico imobilizada. Agora estou em águas desconhecidas. Como será que ele vai me julgar?  Pela minha voz, meu perfume, minha energia?  Não quero arriscar. Estou vazia, feito pele velha de cobra, abandonada no passado. Sinto um desejo irremediável de ser tocada por ele, como se a minha existência dependesse desta impressão digital. Levanto-me e sigo em sua direção. Já não sinto tanto calor. Assim que chego ao seu lado ele vira-se para mim e, sem nenhuma palavra, começa a passar as mãos no meu rosto. Seus dedos me analisam com cuidado, como se procurassem uma valiosa imagem perdida.  No seu tato firme, sinto as linhas da minha vida se ligando como pontos fragmentados de um mapa antigo, cujo tesouro é desvendar o enigma da longevidade.

Um vento fresco acaricia meu rosto, abro os olhos, algumas pessoas estão à minha volta me abanando.

-           A senhora está bem Dra. Irene? O que aconteceu?

            Levanto-me e lá estão os olhos negros. Respondo com renovada tranquilidade:

-           Foi um mal-estar passageiro, nada importante. Podemos continuar a reunião. Tenho um caso muito interessante para o Dr. Vitor.

   

quarta-feira, 25 de maio de 2011

PROFESSORA DISSECADA

Depois de dez anos da mais honesta comunhão com a profissão, Tatiana acreditava estar preparada para todo tipo de situação. Ainda assim, vez ou outra, o inusitado lhe desafiava tal crença.
Estava Tatiana passando pelo pátio durante o recreio da manhã, quando pensou ter ouvido uma vozinha misteriosa, quase como um sopro rouco, lhe chamando:
- Mommy.
Virou-se surpresa, e por alguns segundos não soube o que responder. Ficou furtivamente envaidecida por Carol gostar tanto dela a ponto de chamá-la de mamãe! Aqueles olhos enormes esperando sua reação encheram seu coração de pena. A pequena até se parecia com ela, o mesmo cabelo liso, o jeitinho manso de falar... Mas não, não era sua filha! Recompôs-se e, rapidamente, buscou uma resposta apropriada para a situação na sua caixinha de respostas-politicamente-corretas. Para Tati, trabalhar com as crianças e entendê-las era como montar um quebra-cabeça. As peças vinham de várias caixinhas diferentes, catalogadas dia-a-dia, criança-a-criança.
- Mas você já tem um pai e uma mãe muito legais.
Mal completou a frase e se deu conta de que podia ter falado algo muito perigoso. E se não fossem legais? E se fossem ausentes ou agressivos? Agora aquela pobrezinha, que confiava nela como sua própria mãe, iria pensar que pessoas legais são as que maltratam e, quem sabe até, da próxima vez que fosse vítima de alguma atrocidade, era capaz de ainda agradecer. Sem palavra alguma, Carol arregalou mais os olhos e levantou os bracinhos à sua frente, como se estivesse pedindo um abraço ou fosse entrar num transe sonâmbulo. Tati tentou consertar:
- Você é minha aluna e adoro ser sua professora, mas não sou sua mãe. Tenho uma filha, e não é você.
Os dentinhos separados desapareceram e, decepcionada, Carol desarmou os braços. Tati tinha certeza que a aluna iria começar a chorar. Mas quem sofria mesmo era Tati que não conseguia encontrar um jeito de sair daquele lamaçal - quanto mais caminhava, mais se atolava.
- Não, não, por favor, não fique assim, não é que você não pudesse ser minha filha, até poderia... Quer dizer, não, não poderia... Olha, você não gosta de sair com a mamãe, fazer comprar, viajar? Quando ela vem te buscar na escola, vocês não param no shopping para tomar um sorvete, ir ao cinema juntas?
- É meu motorista que vem me pegar na escola e, quem me leva no shopping é a minha babá, respondeu Carol sem entender bem porque a professora queria saber tudo aquilo.
- ...A mamãe trabalha? Continuou Tati reticente.
- Não!
Ah, então ela devia ser uma daquelas mães que não quer saber dos filhos, deduziu prontamente Tati, tirando esta peça da caixinha das mães-que-não-estão-nem-aí. Em seguida, concluiu o óbvio - que provavelmente passava mais tempo com Carol do que a própria mãe. Como pode alguém não gostar de uma coisinha tão linda assim, perguntou-se Tati, cheia de pena outra vez. A essa altura, já não queria nem perguntar pelo pai, provavelmente um executivo sem tempo ou quem sabe até um daqueles pais separados que nem se lembrava mais da filha, peça da enorme caixinha das famílias-desfeitas. Foi Carol quem foi falando:
- Mas quando meu pai voltar de viagem, nós vamos ao shopping para comprar um celular novo para mim.
Como assim celular novo, e criança dessa idade precisa de celular? E novo ainda? Quer dizer que já teve outro? Tati já ia buscando outra peça na caixinha do consumismo-alivia-culpa, quando a voz de outra criança chamou sua atenção:
- Mummy. Ouviu a voz grave e trêmula de um menino mais adiante.
E mais outra menina repetindo a mesma palavra. Eles iam ziguezagueando com os braços levantados atrás dos outros que andavam com os olhos fechados. Se uma múmia se encostasse à outra criança, esta, por sua vez, também viraria múmia e passaria a caçar.
Mumificada, Tatiana percebeu que ainda não tinha peças nesta caixinha.


quinta-feira, 19 de maio de 2011

LITERATURA E ARTE - RELAÇÕES ENTRE IMAGEM E PALAVRA

SESC Vila Mariana
Dia(s) 24/05, 26/05, 31/05, 02/06, 07/06, 09/06
Terças e quintas, das 19h às 22h

Esta atividade de criação literária visa explorar as relações complexas entre literatura e artes plásticas na contemporaneidade. Serão examinados algumas possibilidades de entrecruzamento da literatura e da arte por meio de análises de obras literárias e visuais. No centro do curso estará a noção de ecfrase, ou seja, da reinvenção verbal de criações plásticas. À luz das análises preliminares, serão propostos exercícios de escrita aos participantes e a subsequente leitura e discussão destes textos. Com a escritora Verônica Stigger. Sala 3, 6º andar - Torre A. Inscrições na Central de Atendimento, a partir de 26/04. 

R$ 40,00 [inteira]
R$ 20,00 [usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante]
R$ 10,00 [trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes]

Informações:

http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=193341

PRÓXIMOS CURSOS SESC BELENZINHO

O SESC Belenzinho oferece vários cursos gratuítos dentro do Laboratório de Escrita e Poéticas. Confira os próximos cursos:


De 17/05 a 14/06. Terças, das 18h30 às 21h30. Diferente do romance que é irrigado por vários rios-histórias, o conto é apenas um riacho. Gênero que exige economia, ritmo e tensão, o conto, desde a primeira linha, como nos lembra Antonio Skarmeta, chama, acena e convoca para o final. O objetivo dessa oficina é apresentar as diversas modalidades da narrativa breve atual, discutir seu processo de criação e motivar os participantes, com exercícios de sensibilização, a mover as águas de seus riachos ficcionais. Com João Anzanello Carrascoza. Duração: 5 encontros. Sala de Oficinas 2. 15 vagas. Inscrições a partir de 03/05, no 1º pavimento, a partir das 14h.
 
 
De 14/06 a 28/06. Terças, das 15h às 18h.   Por meio de exercícios específicos fundamentados na percepção sensorial e na leitura de textos literários, que têm como temática os cincos sentidos, os participantes poderão se expressar e desenvolver a linguagem escrita. A experiência vivenciada pela sensibilização dos sentidos como forma de estímulo para a produção textual será a base do trabalho. Haverá a leitura de textos de Marina Colasanti, Italo Calvino e João Cabral de Melo Neto. Coordenação: Carla Caruso. Duração: 3 encontros. Acima de 14 anos. 20 vagas. Inscrições pessoalmente dia 1/06 a partir das 14h, no 1º pavimento. Vagas remanescentes: inscrições a partir do dia 2/06, no local e também pelo email cursos@belenzinho.sescsp.org.br [sujeito à confirmação]. Sala de Oficinas 3.


De 30/06 a 28/07. Quintas, das 18h30 às 21h30. Destinado ao aprimoramento da escrita como ferramenta de comunicação, bem como o desenvolvimento das habilidades necessárias para a composição de um roteiro de história em quadrinhos. Entre outros temas abordados, que vão desde a concepção da história à sua realização sobre o papel na forma de um roteiro para HQ, destacam-se criação de argumento, personagens, tempo e narrativa, narrativa gráfica, além de um módulo dedicado ao desenvolvimento e apresentação de projetos para editoras e editais. Coordenação de Marcela Godoy. Duração: 5 encontros. Acima de 16 anos. 20 vagas. Inscrições pessoalmente dia 1/06 a partir das 14h, no 1º pavimento. Vagas remanescentes: inscrições a partir do dia 2/06, no local e também pelo email cursos@belenzinho.sescsp.org.br [sujeito à confirmação]. Sala de Oficinas 2.
 

ENCONTRO COM IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO

O escritor Ignácio de Loyola Brandão conversa com o público sobre os livros selecionados para o projeto Estante Viva. Jornalista, cronista, romancista e contista, é autor de Não Verás País Nenhum, O Beijo Não Vem da Boca, O Anônimo Célebre, entre outros.

Este encontro faz parte do projeto do Estante Viva. A cada mês, um escritor convidado seleciona livros do acervo da biblioteca do SESC Belenzinho que foram marcantes em sua trajetória. A estante especial de cada autor fica disponível na biblioteca por um mês e é comentada pelo escritor em um encontro com o público.

SESC Belenzinho
25/05 Quarta-feira às 20h

Informações: (11) 2076-9700 ou http://www.sescsp.org.br/sesc/programa_new/mostra_detalhe.cfm?programacao_id=193853

quarta-feira, 18 de maio de 2011

PADARIA, PADOCA, PADARA

Depois de horas de jejum para fazer exame de colesterol, o que mais gostoso que entrar numa padaria para comer um pão com manteiga na chapa e tomar um expresso com leite? Aliás, café na padaria é sempre muito bom, é começar o dia de férias, um pequeno luxo de grandes efeitos.

Sempre gostei de padaria, desde pequena. Em casa, o lanche da tarde era a manteiga derretendo no pão na companhia do café com leite. Cada fornada tinha hora certa para sair. O cheiro de fermento ia abrindo o apetite da gente. O pão crocante vinha embrulhado num papel rosa escuro. Esperávamos na fila, a mesma rotina seis dias por semana. Como todo o comércio, padaria ficava fechada aos domingos, dia em que e as pessoas realmente descansavam. Quem quisesse bengala, leite fresco ou manteiga, que comprasse na véspera ou fizesse em casa. Toda padaria tinha um balcão no canto, onde a pinga era vendida junto com pastéis, ovos empanados e linguiça aos pedaços. Por trás do balcão, prateleiras de vidro acomodavam desde garrafas de bebida até latas de ervilha e velas de aniversário. Com a perspectiva de crescimento, os pinguços foram remanejados para os bares do bairro e móveis centrais foram instalados, onde os itens mais apetitosos e atraentes foram expostos.

As padarias começaram a oferecer mais produtos e serviços, atraindo mais clientes. Tornaram-se um grande negócio no almoço e os pães e bolos foram se diversificando. Nesta época, eu já morava sozinha e adorava tomar o café da manhã numa padaria em frente de casa. Era bom estar acompanhada, ainda que no anonimato das cidades grandes, naquela que achava ser a mais solitária das refeições de solteira, o café da manhã. A novidade das padarias era o pão de queijo e as máquinas de café expresso que ainda dividiam espaço com o café coado no filtro de pano.

Finalmente, veio a revolução das padarias com seus sanduíches de metro, salgadinhos, pizzas, e pães gourmets, dando novas funções para o antigo estabelecimento.  Encomendas pela Internet, delivery  e franquias aconteceram rapidamente. Padaria virou um negócio muito lucrativo e ganhou até um apelido pop, padoca. As boutiques de pães passaram a reluzir, totalmente reformadas, reunindo famílias e amigos nas mais diversas ocasiões, dos brunches até as comemorações de aniversário e happy hours entre os colegas de trabalho.  

Ainda restam algumas poucas padarias antigas e tradicionais, minhas favoritas, que em casa carinhosamente chamamos de padara.  Elas não têm vergonha do balcão de alumínio nem do tule separando o pão doce das abelhas. Têm uma linha de produtos simples, mas honesta e consistente.  Não se preocupam em inovar, mas fazem de tudo para continuar fazendo o que fazem muito bem. Os cuidados são pequenos e os resultados enormes. Assim como quando entro na padaria e antes mesmo que eu me sente no balcão, minha média escura já está servida e meu pão já está chiando na chapa. Posso conversar sobre futebol, o preço da gasolina, o calor fora de época, ou simplesmente curtir meu café da manhã depois de um exame de colesterol.

sábado, 7 de maio de 2011

AULA ESPETÁCULO COM ARIANO SUASSUNA

Vídeo da Aula Espetáculo com Ariano Suassuna que aconteceu dia 30/4/2011 no teatro do SESC Vila Mariana e com transmissão AO VIVO pelo Portal SESCSP

Com uma escrita inspirada pelo simbolismo, pelo barroco e pela literatura de cordel, o romancista, poeta e dramaturgo Ariano Suassuna transforma o sertão no palco de questões humanas universais. O escritor foi o criador do Movimento Armorial, que tem como projeto a apropriação estética de todas as artes populares do Nordeste. Na apresentação Suassuna conversa com o público sobre as manifestações culturais que tem contribuído para a formação da identidade brasileira.

Clique no site para assistir http://www.youtube.com/watch?v=yobZ3G9n6ho

COMO ESCREVER UMA BIOGRAFIA - PROJETO CULTURA

Professor | Rodrigo Petronio
Duração | 6 encontros
Dias | terças-feiras das 15h00 às 17h00
Datas | 10, 17, 31 de maio 7, 14, 21 de junho
Local | Fundação Ema Klabin - Rua Portugal 43, Jardim Europa
O curso pretende fornecer recursos para a escrita de biografias e elementos técnicos sobre a prospecção de informação, organização dos dados e finalização estilística. Também pretende apontar para algumas definições teóricas dos limites e das trocas existentes entre biografia e literatura, bem como sugerir leituras e comentar algumas biografias e biógrafos, clássicos e atuais.

Informações através do site: http://goo.gl/SAsNL ou pelos telefones 11 | 2307-0767 |11 | 2339-0767  Tel/fax 11 | 3081-5845

ESCREVIVENDO - OFICINA DE ESCRITA E LEITURA NA CASA DAS ROSAS

A desconstrução do fantástico em narrativas de José J. Veiga Com Nedilson César.
Sábados, 14, 21, 28 de maio, 4, 11 e 18 de junho, 10h.
CASA DAS ROSAS

Este módulo da oficina de escrita e leitura será baseado em contos de José J. Veiga, como: "Os cavalinhos de Platiplanto", "A espingarda do rei da Síria" e "A máquina extraviada".
Informações através do site http://www.casadasrosas-sp.org.br/ ou pelos telefones  (11) 3285.6986 / 3288.9447

ESPELHADELA

As meninas aprendem com as mães através dos pequenos gestos, dos olhares suspensos e dos suspiros silenciosos. São pequenas espiãs, aprendizes auspiciosas.  Algumas mães tentam inutilmente despistar ou doutrinar com conversas e lições ensaiadas. Outras se deixam observar por suas pequenas, sem pressa ou estratagemas.

Bem menina ainda, adorava observar minha mãe lendo em sua poltrona. Passava várias vezes pela porta do seu quarto, com todo o cuidado para não interrompê-la. E, através de um pequeno gesto silencioso, tornei-me cúmplice daqueles momentos de misterioso prazer. Sabia que ela tinha começado um livro novo pela cor diferente da capa dura. E se o marcador de livros andasse rápido, era sinal de que ela estava gostando da leitura.

Outras vezes entrava silenciosa no seu quarto e alongava meu corpinho na cama grande que ficava ao lado do espelho. De bruços, apoiava os cotovelos dobrados na cama, mãos sustentando o rosto e olhos fixos em cada movimento dela. Além de mim, só os raios de sol que entravam pela porta de vidro permeavam aquele ritual irretocável. O sutiã de bojo, o vestido evasê, os bobes da véspera, o penteado e o laquê, a maquiagem, o perfume, os sapatos combinando com a bolsa, o toque final de um broche, tudo, tudo eram lições que só foram aprendidas muito mais tarde, quando finalmente compreendi a solidão feminina.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

PALESTRAS E CURSOS GRATUITOS - ESCOLA SÃO PAULO

A Escola São Paulo oferece palestras e cursos gratuitos em diversas áreas. Confira a programação na área de literatura para maio e junho.

OFICINA DE LITERATURA DRAMÁTICA E LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA | com Ivan Feijó | 6 de maio a 31 de junho (6ª) |10h às 13h/8 aulas | 23 horas* | * 7 aulas com duração de 3 horas e 1 aula com duração de 2 horas.

PALESTRA - ROMANCE POLICIAL | com Claudio Nigro |13 de maio (6ª) | 19h30 às 21h30 | 1 aula | 2 horas

PALESTRA - UM DEPOIMENTO SOBRE CRÍTICA DE ARTE | com Fabio Cypriano |  27 de maio (6ª) | 19h30 às 21h30 | 1 palestra | 2 horas

OFICINA DE CRÔNICA | com Milly Lacombe | 2 a 30 de junho (3ª e 5ª) | 10h às 13h | 8 aulas | 23 horas* | * 7 aulas com duração de 3 horas e 1 aula com duração de 2 horas

PALESTRA DE LITERATURA E VIAGENS | com Marcos Moraes | 3 de junho (6ª) | 19h30 às 21h30 | 1 palestra | 2 horas

PALESTRA - CRÔNICA DE UM AMOR LOUCO: O PRAZER NA ESCRITA  | com Xico Sá | 10 de junho (6ª) | 19h30 às 21h30 | 1 palestra | 2 horas

OFICINA DE CRITICA LITERÁRIA: CRÍTICA E ESCRITA | com Paloma Vidal | 11 de junho a 2 de julho (sábado) | 9h20 às 18h | 3 aulas | 23 horas

PALESTRA - UM DEPOIMENTO SOBRE CRITICA LITERÁRIA | com Luiz Ruffalo | 17 de junho (6ª) | 19h30 às 21h30 | 1 palestra | 2 horas

Informações através do site http://www.escolasaopaulo.org/cursos/literatura ou pelo telefone +55 11 3060-3636


             

quinta-feira, 5 de maio de 2011

DIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

"Comemora-se hoje o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Para celebrar o papel da língua portuguesa, «um vínculo histórico e um património comum resultantes de uma convivência multissecular que deve ser valorizada», haverá eventos em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. A lista dos principais eventos, por país, pode ser consultada aqui.

Em Lisboa, destaque para a exposição de livros de autores em língua portuguesa, para a leitura de textos de autores da CPLP e para a voz de Manuel Freire a cantar poetas da CPLP, no Instituto Camões. No Auditório da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) da Feira do Livro de Lisboa, às 19h30, haverá um debate sobre a internacionalização da língua e cultura lusófonas, com a presença de Ana Paula Laborinho (presidente do Instituto Camões), Domingos Simões Pereira (secretário executivo da CPLP) e Paulo Teixeira Pinto (presidente da APEL)."

Informações http://blogue.priberam.pt/

quarta-feira, 4 de maio de 2011

CARLOS HEITOR CONY NO SESC VILA MARIANA

Amanhã, 05/05/2011 – QUINTA-feira - 20h, a convite de Sempre Um Papo, o escritor e jornalista Carlos Heitor Cony debate o tema “85 Anos de Vida – Literatura e Jornalismo em Experiência” e lançamento do livro “Eu, aos Pedaços”. Uma obra que reúne crônicas já publicadas sobre a vida pessoal e profissional de Cony.

SESC Vila Mariana - Rua Pelotas, 141 – Vila Mariana

ENTRADA FRANCA!

terça-feira, 3 de maio de 2011

ENGARRAFAMENTO

Depois de parar o carro várias vezes, percebeu tratar-se de um engarrafamento. Se chegasse atrasado, teria que ficar até mais tarde no trabalho. Sentiu um desgosto azedo no estômago ao prever sua rotina diária perturbada. Um pensamento súbito prenunciou o sinistro: e se começasse a ter ideias ali no carro?

Rodrigues trabalhava das nove as seis em uma firma de contabilidade. Chegava em casa às sete e, depois de tomar banho e jantar com a mulher e seus dois filhos, fechava-se no quarto para escrever. No começo a mulher reclamou; depois se acostumou: melhor em casa do que na rua. Ele gostava de manter sua vida assim organizada, trabalho durante o dia, um intervalo familiar e a escrita à noite.

Só que de uns tempos para cá, as ideias começaram a atacar Rodrigues fora de hora. A primeira manifestação foi durante um almoço com os colegas. Mal tinha feito seu pedido quando surgiu a loira de voz rouca. O pessoal falava alto à sua volta, mas a única voz que ele escutava era a da loira. Pegou um guardanapo e, com a caneta do bolso, começou a anotar tudo. Até que alguém, estranhando, descortinou seu pensamento em profunda imersão:

- Ô Rodrigues, o que é que você está escrevendo aí?

Despertou-se assustado e guardou atrapalhado o guardanapo no bolso.

- São umas informações que preciso passar para um cliente, não queria esquecer...

Não era assim que havia desejado sua escrita, mas a experiência crescia irreversível. Sentia-se amedrontado e culpado, mas, acima de tudo, sentia-se secretamente vivo. Passou a noite escrevendo. Pela manhã, comprou uma cadernetinha para manter no bolso, caso a loira voltasse.

E ela voltou. Desta vez, deixou um cliente falando sozinho enquanto ela desvendava sua história. Apareceram muitos outros e muitas histórias que Rodrigues registrava como podia. Noites inteiras em claro, perseguindo as mensagens do dia. No trabalho, sempre quieto e ausente, olheiras e anotações intermináveis. Logo começou o falatório, achavam que ele estava ficando louco. O chefe achou melhor conversar com a mulher. Ela pediu que ficassem tranquilos, não passava de estresse. Garantiu que conversaria com ele, sairiam de férias.

- Você tem que parar com essa maluquice, esse negócio de escrever. Melhor procurar um médico, pedir um remédio. Isso não é normal, você ainda acaba perdendo a cabeça ou o emprego!

Mas ele não sabia e nem queria parar as ideias. O que ele sabia é que precisava anotá-las, pois já se apertavam enfileiradas naquele trânsito insano. Procurou sua cadernetinha, não a encontrou. Um papel, qualquer coisa, nada. As ideias, convulsões incessantes, brotavam-lhe pela testa e escorriam pelo pescoço. Tentou pedir um papel para a mulher no carro ao lado, viu o vidro da janela fechar-se de susto. As palavras pressionavam cada vez mais, apertando-lhe o peito indefeso. Seus dedos escravos, numa derradeira e desesperada tentativa, começaram a escrever na própria mão, nos braços e nas pernas.

Quando o encontraram mais tarde, morto no carro, estava totalmente nu, o corpo coberto de mensagens, várias histórias que nunca chegaram ao fim.

domingo, 24 de abril de 2011

PRÓXIMA PARADA: PURGATÓRIO

Estação da Sé às sete da manhã. É gente para tudo quanto é lado, fila para comprar bilhetes, fila para passar pela catraca e outra fila para entrar no trem. Ótimo, é assim mesmo que gosto de tomar a linha vermelha do metrô: em dia de semana, no verão, no horário de pico. Um verdadeiro Purgatório urbano, receita infalível para se livrar de qualquer culpa por bens ou confortos recentemente adquiridos ou por qualquer pecadilho que tenha cometido.

Tem gente que prefere pechinchar na 25 de Março na véspera de natal ou assistir à uma partida do Corinthians e Palmeiras na geral debaixo do sol ou andar de bicicleta no Ibirapuera domingo de manhã ou ainda passar o carnaval numa praia de Santos. Tudo, tudo Purgatório. É questão de gosto ou necessidade. Para mim, o metrô, uma vez por mês, é normalmente o suficiente. Mas depois que comprei carro com ar condicionado e direção hidráulica, precisei aumentar para uma viagem a cada duas semanas para obter o efeito desejado. Também levo meu filho à aula de guitarra de metrô uma vez por semana. Mas como é na linha verde e no contra-fluxo não conta como crédito, mas sim para garantir seu aprendizado.

Com tanta gente atrás de você, todos desesperados para embarcar, esperar nas plataformas pode ser um pouco amedrontador. Neste momento, é preciso manter a calma e persistir. Ainda mais agora que há um funcionário a cada porta supervisionando o pessoal. Não chegam a ser como os guardas de luvas brancas do metrô japonês, mas dão uma organizada na bagunça e garantem que ninguém vai se jogar ou ser jogado na frente do trem.

Lugar garantido dentro do metrô, você procura se segurar em alguma coisa. Com sorte alcança alguma alça. Senão, é só se encaixar entre as pessoas e se deixar levar. Às vezes o trem fica parado alguns minutos em uma estação devido a uma falha no sistema, problema no trilho, tempestade na cidade, ou algum outro tipo de contratempo. Boa oportunidade para conhecer melhor seus vizinhos, aperfeiçoar seu olfato e desintoxicar os poros.

Primeiro, você segura a bolsa ou mochila à sua frente, tenta resguardar o traseiro e olha para todos os lados para certificar-se de que ninguém oferece perigo imediato. A etapa seguinte já permite uma análise mais minuciosa dos cortes de cabelo, roupas, idades, hábitos esportivos, profissões, perfumes e hálitos dos companheiros de trem. Às vezes pode surgir alguma conversa indesejável entre os passageiros, pergunta ou reclamação. Más é muito mais produtivo guardar seus pensamentos para você.

Entre uma estação e outra há algum remanejamento, uns poucos saem, muitos entram e você aproveita toda e qualquer oportunidade para otimizar sua experiência. Se der azar de alguém se levantar perto de você, tente doar o assento de qualquer maneira. Mas se não der jeito mesmo de recusar, aí você senta e oferece para pegar tudo que é bolsa e mochila à sua volta. Se for dia de chuva, pega guarda-chuva molhado também. Com sorte, logo entrará algum idoso ou mãe com criança de colo e você se levanta novamente.

Melhor mesmo é dar lugar para deficiente físico ou visual. Semana passada meu filho e eu fizemos uma ótima viagem na linha verde. O trem vinha bem cheio e ficamos em pé. Ele estava encostado na barra lateral junto à porta quando ela se abriu e um cego entrou. Não precisei dizer nada, ele cedeu seu lugar imediatamente. Algum espertinho ainda tentou se levantar, mas o cego não quis, ia descer logo. Pude ver pelo sorriso de satisfação e alívio do meu filho que ele tinha aprendido direitinho a lição e que tinha aprontado alguma durante a semana.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

DICAS DE COMO CONVIVER COM AS NOVAS REGRAS DE ORTOGRAFIA

Não sei você, mas eu ainda não decorei as já não tão novas regras de ortografia. Não é por falta de memória, que eu decoro coisa muito mais inútil: ainda me lembro de que o símbolo de potássio é o K. É que é muito antipático mexerem na língua assim, e ainda por cima forçarem a gente a decorar este mundo de regras sem sentido. Pra que? A língua já não tem evolução própria? Por acaso alguém precisa de acordo para decorar as gírias? Ou manual para utilizá-las? Até mesmo os estrangeirismos, que a princípio, por falta de palavra nativa, se instalam à revelia dos falantes, com o tempo dão um jeito de se aportuguesar e entrar no repertório popular: futebol/football, estresse/stress, e uma das melhores, forró/for all. Mas como o período de protesto e resistência às regras de ortografia já passou, pensei em algumas idéias para conviver com elas.

1. Você espalha cartazes pela casa com todas as regras e é forçado a lê-las a caminho da cozinha, banheiro ou quarto. Geladeira, telefone e privada são lugares privilegiados; talvez você deva utilizá-los para os hífens, hiatos e ditongos. A vantagem deste método é que outros membros da casa também podem se beneficiar.

2. Você utiliza a mesma idéia do item anterior, mas as regras são escritas em cartões pequenos que podem ser levados na bolsa, e além dos lugares acima mencionados, podem ser utilizados na sala de espera do dentista, trânsito de São Paulo, reunião de planejamento, fila do INSS, etc.

3. Você ignora totalmente as regras e passa a incluir a seguinte frase em tudo que escreve.

‘Texto ainda NÃO revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.’

Mas atenção, isto só vale até 2013, quando as regras antigas não poderão mais coexistir com as novas regras.

4. Você compra e instala um programa de revisão ortográfica devidamente atualizado, e à medida que ele vai corrigindo seus erros, você vai estudando as novas regras. Mas é imprescindível que você escolha a opção em que as sugestões de correções ortográficas tem que ser confirmadas uma a uma; caso contrário, o programa fará todo o trabalho e você não aprenderá nada.

5. Você se voluntaria como revisor de textos no jornalzinho do bairro ou na escola do seu filho para se forçar a praticar as novas regras. Afinal, você não vai querer fazer feio com os vizinhos ou seu filho. Se tiver vizinho intelectual e mais que um filho, cada um em uma escola diferente, melhor ainda.

6. Você consulta seu filho sobre a ortografia das palavras. Mas veja bem, só vale se ele tiver entre onze a doze anos, pois isto significa que ele aprendeu ortografia já segundo as novas regras. E ele tem que ser bom aluno e tem que ter tido uma professora muito boa que já tenha aprendido as novas regras. O inconveniente desta opção é que o vocabulário dele pode ser ainda um pouco limitado.

7. Você contrata um revisor profissional para revisar seus textos. Se ele for bom, revisará muito mais que a ortografia, e seu texto ficará excelente. O problema é o custo e a dependência deste profissional. Mas, se você tiver alguma habilidade como falar inglês, tocar piano, fazer massagem ou cozinhar muito bem, pode propor um sistema de troca de serviços. Com sorte você pode arrumar novos clientes ou até um namorado novo!

8. Você passa a escrever somente em inglês ou em outro idioma de sua preferência. O inglês sai na frente já que é uma língua super econômica e prática, e os caras adoram cortar (gym - gymnastics), juntar (brunch –breakfast/lunch) ou inventar novas palavras de duas (dirty-movie theater para diferenciar de dirty movie-theater!!!). Embora haja regras, não há acentos ortográficos ou censura. Agora, se você já não dominar o idioma, pode ficar um pouco caro para aprendê-lo e demorar um pouco até que você possa publicar alguma coisa interessante.

9. Você só escreve no Twitter, Messenger e similares. Aki vc eskreve tdu xempli axim, blz? (Aqui você escreve tudo sempre assim, beleza?) Nesta linguagem espontânea e antagônica, as regras não tem tempo de se consolidar. Depois de um rápido treino, qualquer um pode se comunicar e criar. Só é preciso ter bem claro qual a mensagem a ser passada, sem rodeios. Se você parar para pensar, é uma linguagem bem mais democrática do que qualquer tratado acadêmico.

10. Você manda sua sugestão de como conviver com as novas regras de ortografia e eu a coloco aqui.

‘Texto ainda NÃO revisado segundo o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.’

domingo, 10 de abril de 2011

BOLA NA REDE

Nem time de futebol eu tinha. Jogo, só se fosse do Brasil, em copa do mundo, e assim mesmo em quartas de final. Percebi que ele tinha mesmo emplacado comigo quando me convidou para assistir um jogo entre o Comercial e o Juventus e eu aceitei. Não sem antes renunciar ao meu seriado favorito e passar os próximos noventa minutos sentadinha ao lado dele sem fazer absolutamente nenhum comentário. Será mesmo que eu estava gostando de futebol?

Meus primeiros comentários futebolísticos eram firulas, feito criança pequena usando alguma palavra grande pela primeira vez. Tomei muito frango, mas a reação da galera masculina foi encorajadora; eu estava entrando para o outro time. Depois passei a conhecer os clubes, campeonatos, regras do jogo e as politicagens dos cartolas. Soninha e Renata Fan passaram a ser minhas ídolas.

Agora já sabia das novas contratações, discutia faltas e impedimentos, e o mais importante, tinha um time, o dele obviamente. E torcedora do Santos naquela época tinha que molhar a camisa, porque não tinha figura feito Robinho nem Neymar ou Ganço, era só perneta coberto da poeira do Pelé. Mas como boa torcedora, não abandonei meu time.

Não passou muito tempo até que eu me tornasse uma geraldina, curtia todos os jogos, até o futebol feminino pré-Marta eu assistia. Se por acaso eu dormisse durante uma partida, a primeira coisa que ele me contava pela manhã era o resultado do jogo. Às vezes era eu quem dava uma notícia de primeira mão. A essas alturas a paixão tinha extrapolado o campo doméstico; eu sabia o time de todos os meus alunos da classe, falava de futebol com o taxista e desconfiava de qualquer pessoa que não gostasse de futebol.

Aí ele começou a reclamar, dizia que eu estava viciada e que só pensava em futebol. Neguei! Era só diversão, poderia deixar o futebol a qualquer hora. Fazia isso só para agradá-lo, ele é que não entendia. Passei então a mentir para ele, assistia jogo escondido, parava nas bancas de jornal para ler notícias esportivas, fingi até que não sabia da contratação do Ronaldo pelo Corinthians.

Mas tudo tem um limite, e percebi que tinha quebrado todas as regras quando me neguei a namorar com ele porque tinha jogo do Santos na Libertadores.

sábado, 26 de março de 2011

Madona Partida

Abri a porta, os meninos estavam procurando alguma coisa no chão, uma base, base de quê, perguntei. Voltaram os olhares para a mesa e lá estava ela, minha madona, uma trinca enorme em seu pescoço separando-a em duas partes. Pelo corte transversal saiam várias outras trincas pequeninas que arruinavam minha pequena para sempre. Peguei-a com pressa em minhas mãos como quem socorre uma vítima gravemente acidentada. Mas era tarde demais, não havia nem remédio nem reparo que desse jeito nela. Cabeça decepada do corpo, corpo arrancado da base, totalmente sem chão e sem destino. Segurava sua cabecinha em uma mão e o corpinho na outra sem saber o que fazer com ela ou comigo. Minha vontade era chorar. Jogando futebol na sala! O que é que vocês estavam pensando? Nunca mais! Estão me ouvindo? Nunca mais! E justo a estátua da tia Simone. Gritei, xinguei, me fechei no quarto, não jantei, e triturei meus dentes numa noite muito longa, sem nenhuma lágrima e sem nenhum conforto, nenhum. E ainda ia ter que pedir que me pedissem desculpas! Na manhã seguinte, assim que abri os olhos, dei logo com ela ainda em cima da estante do meu quarto. Pronto, minha tristeza acordou também. Mas a gente não sabe conviver com a tristeza, fica logo querendo entendê-la e livrar-se dela o mais rápido possível, antes que vire depressão. Pensei na arte partida, no presente da irmã artista perdido, na madona eu perdida, na partida dos meninos, e em tudo que era inquietação do dia, de onde é que vinha aquela melancolia? Podia ser tudo e nada. Então, o jeito era ficar triste. Fui seguindo meu dia, fazendo tudo muito devagar, meio que espiando aquela névoa espessa. Tomei o ônibus para trabalhar, e assim que me sentei, peguei meu caderninho e comecei a escrever. Uma página depois, senti meus olhos úmidos. Coloquei os óculos escuros, encostei a cabeça na janela e fiquei ali, meia hora da mais triste paz. Só emoção, sem pensar. Depois voltei a pensar de novo, mas quem sabe agora no novo.