sábado, 18 de abril de 2009

Sombras

Arnaldo começou a rir, suas bochechas flácidas subiam à medida que rugas felizes apareciam em volta de seus olhos azuis e o nariz pontiagudo projetava-se para baixo. Primeiro um riso tímido, depois uma gargalhada tão estrondosa que chegou a se engasgar. Abriu os olhos, ainda risonhos, quando a mulher chacoalhou seu ombro:
- Que foi que aconteceu?
- Aquela piada do português, sabe aquela...é muito boa!
- Nossa, você quase me matou de susto!
Coçou a cabeça meio sem jeito, passando os dedos na cabeleira branca amassada, que há muito não deixava o pente chegar perto.
- Que dia é hoje, perguntou confuso.
- Você já me perguntou isto umas dez vezes. Que diferença faz? Segunda, quarta ou domingo, é tudo a mesma coisa.
- Você diz cada coisa mulher, lógico que tem diferença, preciso ir trabalhar.
Deve ser domingo, por isso estou em casa. Revirou-se na poltrona, olhou para a televisão sem ver o que passava. Fechou os olhos de novo, sentiu a boca quente dando-lhe prazer, debaixo do chuveiro – o melhor boquete da minha vida. Um satisfeito suspiro resultou-lhe da lembrança: Ah, acho que gozei. Olhou para baixo, tinha feito xixi nas calças!
- Essa não, de novo! Você vai ter que voltar a usar fraldas, resmungou a mulher.
Será que é assim que os bebês se sentem? Claro que não. Que saudade da minha mãe... Sentiu o toque da mulher trocando-lhe a roupa e não pode resistir; passou a mão nos seus cabelos, macios e bonitos. Sou um homem de sorte mesmo. Como é que consegui conquistar uma mulher tão bonita! Ela puxou a cabeça de lado e mandou que ficasse quieto. Porque será que ela anda tão tensa ultimamente? Deve ser por causa das crianças.
- Já está na hora de buscar as crianças na escola?
- Que crianças, que escola, homem? Nossos filhos já estão formados.
- Mas quando foi a formatura deles? Como é mesmo que eles se chamam?
Ela não respondeu. Levantou-se e recolheu seu desalento solitário para um canto do quarto.
Calças trocadas, pernas esticadas, pé direito sobre o esquerdo, repousou as mãos entrelaçadas sobre a barriga preparando-se para uma reflexão. Acho que não é domingo, preciso ir trabalhar. De repente, assustado, descruzou as mãos erguendo-as perto dos olhos, O que é mesmo que eu faço? Tentou ainda encontrar alguma pista. Nada, só manchas escuras.
Suas pálpebras pesadas cederam e uma tenebrosa imagem se ergueu diante de si. Estava caindo num poço profundo e escuro. Ninguém à sua volta parecia preocupar-se com sua queda. Seguiam gargalhando indiferentes a ele, girando numa ciranda sinistra. Ele continuou caindo num abismo sombrio. As profundas rugas de sua testa aproximaram-lhe as sobrancelhas espessas. Lembrou-se dos barulhos na solidão de seu quarto escuro quando menino. Tentou salvar-se com um grito contínuo e mudo até que tudo ficou claro novamente, sua cabeça girando como quem sai do carrossel. Olhou à sua volta e não reconheceu nada. Onde estou, que lugar é este, quem é aquela mulher ali no canto? E este gosto amargo na boca..., deve ter sido o pepino que comi no almoço, ou será que foi no jantar? Aliás, que horas são? Que dia é hoje?