terça-feira, 3 de março de 2009

Alianças

Olhei em pânico para a mão esquerda. Cadê minha aliança? Uma recapitulação instantânea...hoje à tarde...tirei antes de começar...Já sei!

- Alô!
- Oi, acho que deixei aí aquela aliança que minha avó me deu. Tirei antes de começar a trabalhar na sua maquete para não sujá-la.
- Onde você a deixou?
- Não consigo me lembrar. Talvez em cima da prancheta ou do criado-mudo.
- Espere aí que vou procurar. Melhor te ligar daqui a pouco.
- Tá bom.

Enquanto aguardava seu telefonema, me relembrei do dia que minha avó me deu a aliança. Havia me casado em uma cerimônia no civil durante meu autoexílio no exterior; um amor fraternal que me daria um status legal no país. Em uma das minhas visitas ao Brasil, durante um almoço na casa da minha avó, ela me chamou de lado, pegou minha mão esquerda e deslizando sua aliança em meu dedo anular disse:

- É para você, que mulher casada tem que usar aliança.

O casamento acabou depois de dois anos, mas ficaram o visto, o amigo arquiteto a quem eu ajudava nos projetos e a aliança da minha avó.
Ela era linda, de platina, cravejada de pequenas zircônias, simples e singular, assim como minha avó. Havia sido presente de seu segundo marido. Viveram juntos por mais de quarenta anos antes de poderem se casar oficialmente, quando ela finalmente enviuvou do primeiro marido.
A princípio pensei que aquela convenção fosse importante para ela. Depois percebi que seu presente era um símbolo da nossa própria aliança, uma relação familiar escolhida dentre outras. Fui eu quem ganhou sua aliança de casamento!
Não éramos parecidas fisicamente e aparentemente nem no jeito de ser. Minúscula, extrovertida e muito boa no carteado, tudo o que eu não sou. Amiga dos vizinhos, vendedores de lojas e dos travestis da rua, escutava-lhes todas as estórias. Transformava cada gesto seu em um ritual do qual eu adorava fazer parte. Fritar bolinhos de chuva, dar comida para os peixes na Praça da República, escutar estórias na vitrola antes do almoço, dormir ao som da chuva numa tarde de domingo, ensinar o papagaio a cantar uma marchinha de carnaval, era tudo muito especial. Às vezes se aborrecia com alguém ou alguma coisa que não era só sorrisos. Gastava o verbo e passava horas com gente grande dando palpite na vida dos outros. Minha irmã dizia que minha avó era um veneno e descrevia em pormenores todas as suas malfeitorias. Eu não conseguia me fixar em nenhum destes detalhes.
O que mais me seduzia de seu passado era saber que ela tinha saído de um sítio no interior de São Paulo para ir trabalhar numa loja no centro de São Paulo. Que desejos tinha aquela moça? Eu sabia! Conhecia esta vontade de olhar o horizonte, de ver o que tem do outro lado do rio, me adentrar noutros mundos e viver outras vidas. Nossa sutil semelhança!

- Alô.
- Não achei nada.
- Como não achou, tem que estar aí. Não está comigo.
- Procurei por todos os lugares, nada. Deve ter caído em algum buraco.
- Não, não pode ser...

Revirei todos os cantos e sentimentos nos dias que se seguiram, primeiro, no local da perda, depois, prostrada na minha cama, em um estado febril de inconformismo. Não haveria outra aliança como aquela. E nunca houve. Minha avó continuou sendo uma referência feminina absoluta para mim.

domingo, 1 de março de 2009

Cadê o Papai Noel

Muito se diz da falta de rituais e fantasia entre nossas crianças. Se eles estão em baixa, o que será que está em alta então? No último natal, meu filho de oito anos descobriu que o Papai Noel não existe. Sabíamos que este momento era eminente e tentamos tratá-lo da melhor maneira possível.

Havíamos comprado uma bicicleta de presente de natal para ele, deixando-a escondida, mal escondida, debaixo da nossa cama. Menos de uma semana depois, ele veio correndo na sala:

- Mãe, mãe, tem um presente enorme debaixo da sua cama!
- Deve ter sido o Papai Noel que já fez sua entrega. Lembra que eu disse que ele viria trazer o seu presente antes?

Fomos até o quarto e ele ainda falou:

- Procura mãe, veja se tem nome no presente.
- Não, não tem, mas um presente deste tamanho só pode ser para você. Vamos abri-lo.

Uma linda bicicleta preta saiu de dentro do pacote! Ele ficou muito contente mas não tão surpreso, alguma coisa estava solta. Fui para a sala e uns quinze minutos depois ele veio atrás de mim:

- Mãe, fala a verdade, foi você e o papai que compraram este presente?
- Porque você está me fazendo esta pergunta?
- Porque o Rodrigo disse que o Papai Noel não existe, e quem compra os presentes são os pais.
- E o que você acha disto?

Levantou os ombros e as sobrancelhas como quem não sabe o que responder. Repetiu a pergunta:

- Papai Noel existe?
- Ele existe no coração da gente, disse-lhe serenamente.

E foi o que bastou. Não perguntou mais nada, nem tampouco pareceu triste ou decepcionado. Era o fim do Papai Noel. Passou algumas semanas sem tocar no assunto até que um dia ele perguntou muito crescido:

- Quem vai se vestir de Papai Noel na festa de natal?

Dois meses depois, ele perdeu um dente. Pedi o dente para guardá-lo.
- Não mãe, tenho que colocá-lo debaixo do travesseiro...

Será que ele ainda acreditava na Fada dos Dentes ou aquilo era conversa para ganhar presente?
- João...
- Também não?
- Não.
- Nem o Coelhinho da Páscoa?
- Não.
- Mas, e as pegadas de coelhos na casa do Vô?
- Ele que pintava.
E temerosa dos efeitos da sua emancipação infantil, prometi-lhe sem pensar:
- Mas posso te dar um presente amanhã...
- Ah, legal!

E mais do que satisfeito, pôs a Fada dos Dentes, o Coelho da Páscoa e o Papai Noel no passado. Era isto então! No dia seguinte, não dei o presente prometido. Ele nem se lembrou, mas pediu a mesada, a nova Recreio, os Gogo’s, as figurinhas de Pokemon...

Meninos e Mestres

Nem mais um dia daquela saia pregada azul marinho horrorosa cobrindo meus joelhos! E os sapatos de bico quadrado, nunca mais! Nem mais esconder meus cabelos num rabo de cavalo compulsório. Não haveria mais perguntas sem respostas, nem cochichos sinistros, nem aulas sem sentido, muito menos rezas diárias na capela da escola. Já não me ocuparia mais em imaginar o que aquelas freiras faziam depois que íamos embora ou como tomavam banho sem tirar suas roupas. Passado! Tudo isto ficara para trás e um novo tempo se iniciava. Esperei quinze anos e aquela seria a primeira vez na minha vida em que assistiria uma aula junto com os meninos! E aulas de verdade!

Naquela manhã, minha irmã e eu fomos para a escola de carro com meu pai. No caminho ele foi recontando pela enésima vez como tinham sido seus tempos de estudante naquela mesma escola. Preferia que tivesse ficado quieto, que aquela conversa azedava o sabor da minha antecipação. Mas ele não parou até que nos deixou em frente da escola. Ao por o pé na calçada, senti a grandeza da diferença. Quanta gente! Pessoas de idades, cores e tipos os mais variados, professores, universitários, jovens, idosos. Um pouco de tudo, menos crianças, que ficavam em outro prédio. Eu, finalmente moça! Saboreava o colorido da cena com suas roupas e bolsas, sandálias, perfumes e cabelos de gente normal. Era a queda do muro de Berlim!
Não sabia muito bem o que fazer, mas minha irmã, que já estava na escola há um ano, foi abrindo o caminho. Primeiro me mostrou onde era o recreio. Havia uma lanchonete num pátio comum para os meninos do colegial e para os rapazes da faculdade! Meus olhos tremelicavam para todos os lados, sem saber onde se fixarem com tantas coisas novas. Depois seguimos para o meu prédio, do curso de Biológicas. Tinha toda essa novidade do curso técnico que formava a gente para uma profissão. Além do desejo escravo de fazer a coisa certa, herança das freiras, aquilo não significava muito para mim. O que eu queria mesmo era aprender sobre células, reações químicas e forças centrífugas. Como seria aprender tudo aquilo?

Entrei no prédio tomada pelo desafio e encanto do mistério. Minha irmã me deixou no laboratório de biologia, minha primeira aula. A luz entrava pelas janelas de vidro, refletindo sobre os instrumentos metálicos alinhados em cima das bancadas de azulejos brancos. Era pura ficção científica! Quais mistérios desvendaria ali? O sinal de entrada tocou e os estudantes começaram a entrar. Fiquei de pé, do lado de uma banqueta, sem saber se deveria ou não me sentar. À minha volta, meninos e meninas com olhares tão indagadores quanto os meus. Os meninos eram menores do que eu imaginava, e um pouco desengonçados; mas não fazia diferença: ali éramos todos iguais na nossa iniciação. Foi somente no pátio da escola e nas festas nos finais de semana que nossas inquietantes diferenças reapareceriam e que os meninos teriam seu lugar especial.

O professor entrou na sala. E com a maestria daqueles que conhecem e amam seu ofício, nos conduziu pela primeira de muitas descobertas. E é deles, dos professores, que guardo minhas melhores lembranças da sala de aula daquele tempo. Lógico que quando voltei para casa naquele dia, falei uma hora sem parar das cores, espaços e momentos novos, cheios de liberdade. Mas foi o prazer pelo conhecimento que aprendi com aqueles mestres o que realmente permeou todos os caminhos