quarta-feira, 22 de abril de 2009

DISQUE-PIZZA

A chuva espalhava o sangue brilhante que vazava do capacete. Seu dono estava estendido no chão imóvel. As pizzas atiradas no asfalto negro, rodelas de calabresa e tomate espalhadas em volta dos discos fugidios que se misturavam ao sangue como glóbulos gigantes. Logo apareceram várias pessoas para socorrê-lo, na maioria outros motoqueiros que se juntavam feito formigas operárias. Outras se aproximavam, insaciáveis desta mórbida rotina. Havia ainda as que preferiam escapar enquanto desse tempo, fugiam do trânsito, do outro, da proximidade da realidade.

- Enganchou na traseira do caminhão, vinha costurando feito louco.
- Também, se não fazem a entrega no tempo, tem que pagar pela pizza.
- Meu Deus, onde é que a gente vai parar!

O motorista do caminhão permanecia imóvel, olhos órfãos, sem entender ainda o que havia acontecido, lembrava-se apenas do leve impacto atrás do caminhão.

- Alguém chama o resgate!
- Tem que tirar esse pau da cabeça dele.
- Não pode, se tirar ele morre.

Sentia uma dor leve, um frio fino que lhe penetrava os caminhos da alma. A chuva grossa refrescava a pele morena no asfalto ainda quente do dia de verão; entre as pálpebras semicerradas, viu estrelas faiscando nos postes estampados contra a negritude da noite. ‘Pai, você me dá uma boneca que faz xixi no meu aniversário?’ ’Mas minha princesa, é muito cara, não tenho dinheiro.’ ’Então você vai no banco e pega!’ Aqueles pequenos olhos suplicantes lhe davam pistas da sua existência.

- Vê se tem documentos no bolso.
- Melhor ligar logo para o restaurante.

Sentiu o cheiro da chuva e lembrou-se do subúrbio de terra batida onde crescera. Os pés enlameados a caminho da escola nos dias de chuva nunca chegaram ao final do ensino básico. Não havia tempo para aprender além do que estivesse no seu caminho. Urgia sobreviver à sua sina. Lutava para sair do vácuo, mas só ali, em cima das duas rodas, sentia vida, ainda que malfadada. Fazia entregas, uma após a outra até a última, a de sua vida.

- Pizza D’Ore, boa noite.
- Um motoqueiro que trabalha para vocês sofreu um acidente.
- Morreu?
- Não dá para saber. A chapa da moto é BRB 3355.
- É o Josoaldo. Vou mandar fazer outra pizza.

[Conto publicado no blog do jornal Plástico Bolha.]

sábado, 18 de abril de 2009

Sombras

Arnaldo começou a rir, suas bochechas flácidas subiam à medida que rugas felizes apareciam em volta de seus olhos azuis e o nariz pontiagudo projetava-se para baixo. Primeiro um riso tímido, depois uma gargalhada tão estrondosa que chegou a se engasgar. Abriu os olhos, ainda risonhos, quando a mulher chacoalhou seu ombro:
- Que foi que aconteceu?
- Aquela piada do português, sabe aquela...é muito boa!
- Nossa, você quase me matou de susto!
Coçou a cabeça meio sem jeito, passando os dedos na cabeleira branca amassada, que há muito não deixava o pente chegar perto.
- Que dia é hoje, perguntou confuso.
- Você já me perguntou isto umas dez vezes. Que diferença faz? Segunda, quarta ou domingo, é tudo a mesma coisa.
- Você diz cada coisa mulher, lógico que tem diferença, preciso ir trabalhar.
Deve ser domingo, por isso estou em casa. Revirou-se na poltrona, olhou para a televisão sem ver o que passava. Fechou os olhos de novo, sentiu a boca quente dando-lhe prazer, debaixo do chuveiro – o melhor boquete da minha vida. Um satisfeito suspiro resultou-lhe da lembrança: Ah, acho que gozei. Olhou para baixo, tinha feito xixi nas calças!
- Essa não, de novo! Você vai ter que voltar a usar fraldas, resmungou a mulher.
Será que é assim que os bebês se sentem? Claro que não. Que saudade da minha mãe... Sentiu o toque da mulher trocando-lhe a roupa e não pode resistir; passou a mão nos seus cabelos, macios e bonitos. Sou um homem de sorte mesmo. Como é que consegui conquistar uma mulher tão bonita! Ela puxou a cabeça de lado e mandou que ficasse quieto. Porque será que ela anda tão tensa ultimamente? Deve ser por causa das crianças.
- Já está na hora de buscar as crianças na escola?
- Que crianças, que escola, homem? Nossos filhos já estão formados.
- Mas quando foi a formatura deles? Como é mesmo que eles se chamam?
Ela não respondeu. Levantou-se e recolheu seu desalento solitário para um canto do quarto.
Calças trocadas, pernas esticadas, pé direito sobre o esquerdo, repousou as mãos entrelaçadas sobre a barriga preparando-se para uma reflexão. Acho que não é domingo, preciso ir trabalhar. De repente, assustado, descruzou as mãos erguendo-as perto dos olhos, O que é mesmo que eu faço? Tentou ainda encontrar alguma pista. Nada, só manchas escuras.
Suas pálpebras pesadas cederam e uma tenebrosa imagem se ergueu diante de si. Estava caindo num poço profundo e escuro. Ninguém à sua volta parecia preocupar-se com sua queda. Seguiam gargalhando indiferentes a ele, girando numa ciranda sinistra. Ele continuou caindo num abismo sombrio. As profundas rugas de sua testa aproximaram-lhe as sobrancelhas espessas. Lembrou-se dos barulhos na solidão de seu quarto escuro quando menino. Tentou salvar-se com um grito contínuo e mudo até que tudo ficou claro novamente, sua cabeça girando como quem sai do carrossel. Olhou à sua volta e não reconheceu nada. Onde estou, que lugar é este, quem é aquela mulher ali no canto? E este gosto amargo na boca..., deve ter sido o pepino que comi no almoço, ou será que foi no jantar? Aliás, que horas são? Que dia é hoje?

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Every Little Thing Gonna Be All Right

Caminhava pelo parque quando o som de uma música conhecida me surpreendeu.

‘Don't worry about a thing...’

Era alguém cantando, a voz vinha muito forte; por um momento pensei que fosse um show ao vivo. Depois percebi que o som vinha daquele homem alto e magro andando por entre as árvores. Levantava seus braços, gesticulando com as mãos em várias direções, feito galhos ao vento, cantando para todos ouvirem. Alternava o canto com declamações de palavras, alvorecendo num poema. De onde havia saído aquele homem? Surgiram logo as primeiras especulações: louco, estrangeiro, artista, drogado?!

Era um homem bem cuidado, com roupas esportivas caras, cabelos bem cortados, elegante mesmo. Quem era ele? Faltava uma categoria para enquadrá-lo, e isto poderia ser um problema não fosse o impacto radiante que causava em todos. Depois de alguns segundos, passou por mim e assim rápido se foi de volta por entre as árvores.

’Cause every little thing gonna be all right.’

Retomei minha caminhada como quem tinha visto o circo passar. Alguns minutos mais tarde continuava lembrando os gestos e palavras daquele emissário no seu vôo solo. O que tinha dado nele para sair cantando daquele jeito? O azul do céu, os pássaros, alguma revelação? Senti uma inveja amiga porque loucura dessas, coisa para poucos corajosos, só sinto a conta-gotas. Queria ser mais ousada, me desfazer de tudo que não tem lugar. Cortar sem dó, despir o passado e continuar nua ao vento. Nem vento, nem brisa, o ar estava parado. Ainda assim, tudo ficou bem.

'Don’t worry about a thing,
cause every little thing gonna be all right.'

domingo, 22 de março de 2009

O Umbigo de Isaura

Chegou ofegante, olhou para os dois lados da calçada e entrou apressado pela portinhola da frente. Apertou a campainha e veio o medo. Pensou em sair correndo. E se sua mulher o soubesse ali? Mas quanto mais ponderava a transgressão, mais desejava ficar. Seguiu pulsando entre a culpa e a excitação até que atenderam a porta. Na entrada, foi logo falando sem preliminares:

- Quero uma massagem tailandesa.
- É sua primeira vez?
- É.
- Meia custa R$100,00, completa R$200,00; o pagamento é no final.
- Meia.
- Se mudar de idéia é só avisar à massagista. Agora sente-se que vou chamar as meninas.

Dez minutos depois três moças entraram sorrindo na sala, duas loiras e uma morena. Eram muito jovens, dezoito, dezenove anos no máximo. Vestiam saias curtas e decotes generosos que anunciavam seus atributos mais fortes. A morena usava uma mini blusa que evidenciava-lhe a barriga, e nela seu umbigo. Não era muito magra, nem tinha músculos definidos. Mas seu umbigo, um mistério côncavo adornado por generosa sensualidade, causou-lhe esquecida e confortante excitação.

- A morena!
- É a Isaura.

Isaura levou-o para um quarto no piso superior, e assim que entraram pediu que se despisse e que fosse se sentar na mesa de massagem. Somente quando estava já sentado, completamente nu, começou a tirar sua roupa, peça por peça, com morosa delicadeza. Havia um capricho afetuoso em seus movimentos. Ele percorria com os olhos cada parte revelada de seu corpo, voltando com obediência para seu umbigo. Aquele rodamoinho hipnótico foi se transformando numa saudade fina que lhe devolveu, por alguns segundos, os primeiros desejos e a esperança dos próximos. Depois, as cinzas das experiências insípidas da juventude, seguidas de incansáveis buscas o levaram até as promessas esquecidas do matrimônio - desilusões lentas, sem rumores nem toques. Sua voz o trouxe de volta à solidão daquela casa de massagem e de todos os homens e mulheres que estiveram lá antes dele. Uma solidão tão escura que era melhor fechar os olhos e se acostumar.

- Agora pode virar e se deitar que meia massagem é só de bruços.
- Vou querer completa - respondeu sem abrir os olhos.

terça-feira, 3 de março de 2009

Alianças

Olhei em pânico para a mão esquerda. Cadê minha aliança? Uma recapitulação instantânea...hoje à tarde...tirei antes de começar...Já sei!

- Alô!
- Oi, acho que deixei aí aquela aliança que minha avó me deu. Tirei antes de começar a trabalhar na sua maquete para não sujá-la.
- Onde você a deixou?
- Não consigo me lembrar. Talvez em cima da prancheta ou do criado-mudo.
- Espere aí que vou procurar. Melhor te ligar daqui a pouco.
- Tá bom.

Enquanto aguardava seu telefonema, me relembrei do dia que minha avó me deu a aliança. Havia me casado em uma cerimônia no civil durante meu autoexílio no exterior; um amor fraternal que me daria um status legal no país. Em uma das minhas visitas ao Brasil, durante um almoço na casa da minha avó, ela me chamou de lado, pegou minha mão esquerda e deslizando sua aliança em meu dedo anular disse:

- É para você, que mulher casada tem que usar aliança.

O casamento acabou depois de dois anos, mas ficaram o visto, o amigo arquiteto a quem eu ajudava nos projetos e a aliança da minha avó.
Ela era linda, de platina, cravejada de pequenas zircônias, simples e singular, assim como minha avó. Havia sido presente de seu segundo marido. Viveram juntos por mais de quarenta anos antes de poderem se casar oficialmente, quando ela finalmente enviuvou do primeiro marido.
A princípio pensei que aquela convenção fosse importante para ela. Depois percebi que seu presente era um símbolo da nossa própria aliança, uma relação familiar escolhida dentre outras. Fui eu quem ganhou sua aliança de casamento!
Não éramos parecidas fisicamente e aparentemente nem no jeito de ser. Minúscula, extrovertida e muito boa no carteado, tudo o que eu não sou. Amiga dos vizinhos, vendedores de lojas e dos travestis da rua, escutava-lhes todas as estórias. Transformava cada gesto seu em um ritual do qual eu adorava fazer parte. Fritar bolinhos de chuva, dar comida para os peixes na Praça da República, escutar estórias na vitrola antes do almoço, dormir ao som da chuva numa tarde de domingo, ensinar o papagaio a cantar uma marchinha de carnaval, era tudo muito especial. Às vezes se aborrecia com alguém ou alguma coisa que não era só sorrisos. Gastava o verbo e passava horas com gente grande dando palpite na vida dos outros. Minha irmã dizia que minha avó era um veneno e descrevia em pormenores todas as suas malfeitorias. Eu não conseguia me fixar em nenhum destes detalhes.
O que mais me seduzia de seu passado era saber que ela tinha saído de um sítio no interior de São Paulo para ir trabalhar numa loja no centro de São Paulo. Que desejos tinha aquela moça? Eu sabia! Conhecia esta vontade de olhar o horizonte, de ver o que tem do outro lado do rio, me adentrar noutros mundos e viver outras vidas. Nossa sutil semelhança!

- Alô.
- Não achei nada.
- Como não achou, tem que estar aí. Não está comigo.
- Procurei por todos os lugares, nada. Deve ter caído em algum buraco.
- Não, não pode ser...

Revirei todos os cantos e sentimentos nos dias que se seguiram, primeiro, no local da perda, depois, prostrada na minha cama, em um estado febril de inconformismo. Não haveria outra aliança como aquela. E nunca houve. Minha avó continuou sendo uma referência feminina absoluta para mim.

domingo, 1 de março de 2009

Cadê o Papai Noel

Muito se diz da falta de rituais e fantasia entre nossas crianças. Se eles estão em baixa, o que será que está em alta então? No último natal, meu filho de oito anos descobriu que o Papai Noel não existe. Sabíamos que este momento era eminente e tentamos tratá-lo da melhor maneira possível.

Havíamos comprado uma bicicleta de presente de natal para ele, deixando-a escondida, mal escondida, debaixo da nossa cama. Menos de uma semana depois, ele veio correndo na sala:

- Mãe, mãe, tem um presente enorme debaixo da sua cama!
- Deve ter sido o Papai Noel que já fez sua entrega. Lembra que eu disse que ele viria trazer o seu presente antes?

Fomos até o quarto e ele ainda falou:

- Procura mãe, veja se tem nome no presente.
- Não, não tem, mas um presente deste tamanho só pode ser para você. Vamos abri-lo.

Uma linda bicicleta preta saiu de dentro do pacote! Ele ficou muito contente mas não tão surpreso, alguma coisa estava solta. Fui para a sala e uns quinze minutos depois ele veio atrás de mim:

- Mãe, fala a verdade, foi você e o papai que compraram este presente?
- Porque você está me fazendo esta pergunta?
- Porque o Rodrigo disse que o Papai Noel não existe, e quem compra os presentes são os pais.
- E o que você acha disto?

Levantou os ombros e as sobrancelhas como quem não sabe o que responder. Repetiu a pergunta:

- Papai Noel existe?
- Ele existe no coração da gente, disse-lhe serenamente.

E foi o que bastou. Não perguntou mais nada, nem tampouco pareceu triste ou decepcionado. Era o fim do Papai Noel. Passou algumas semanas sem tocar no assunto até que um dia ele perguntou muito crescido:

- Quem vai se vestir de Papai Noel na festa de natal?

Dois meses depois, ele perdeu um dente. Pedi o dente para guardá-lo.
- Não mãe, tenho que colocá-lo debaixo do travesseiro...

Será que ele ainda acreditava na Fada dos Dentes ou aquilo era conversa para ganhar presente?
- João...
- Também não?
- Não.
- Nem o Coelhinho da Páscoa?
- Não.
- Mas, e as pegadas de coelhos na casa do Vô?
- Ele que pintava.
E temerosa dos efeitos da sua emancipação infantil, prometi-lhe sem pensar:
- Mas posso te dar um presente amanhã...
- Ah, legal!

E mais do que satisfeito, pôs a Fada dos Dentes, o Coelho da Páscoa e o Papai Noel no passado. Era isto então! No dia seguinte, não dei o presente prometido. Ele nem se lembrou, mas pediu a mesada, a nova Recreio, os Gogo’s, as figurinhas de Pokemon...

Meninos e Mestres

Nem mais um dia daquela saia pregada azul marinho horrorosa cobrindo meus joelhos! E os sapatos de bico quadrado, nunca mais! Nem mais esconder meus cabelos num rabo de cavalo compulsório. Não haveria mais perguntas sem respostas, nem cochichos sinistros, nem aulas sem sentido, muito menos rezas diárias na capela da escola. Já não me ocuparia mais em imaginar o que aquelas freiras faziam depois que íamos embora ou como tomavam banho sem tirar suas roupas. Passado! Tudo isto ficara para trás e um novo tempo se iniciava. Esperei quinze anos e aquela seria a primeira vez na minha vida em que assistiria uma aula junto com os meninos! E aulas de verdade!

Naquela manhã, minha irmã e eu fomos para a escola de carro com meu pai. No caminho ele foi recontando pela enésima vez como tinham sido seus tempos de estudante naquela mesma escola. Preferia que tivesse ficado quieto, que aquela conversa azedava o sabor da minha antecipação. Mas ele não parou até que nos deixou em frente da escola. Ao por o pé na calçada, senti a grandeza da diferença. Quanta gente! Pessoas de idades, cores e tipos os mais variados, professores, universitários, jovens, idosos. Um pouco de tudo, menos crianças, que ficavam em outro prédio. Eu, finalmente moça! Saboreava o colorido da cena com suas roupas e bolsas, sandálias, perfumes e cabelos de gente normal. Era a queda do muro de Berlim!
Não sabia muito bem o que fazer, mas minha irmã, que já estava na escola há um ano, foi abrindo o caminho. Primeiro me mostrou onde era o recreio. Havia uma lanchonete num pátio comum para os meninos do colegial e para os rapazes da faculdade! Meus olhos tremelicavam para todos os lados, sem saber onde se fixarem com tantas coisas novas. Depois seguimos para o meu prédio, do curso de Biológicas. Tinha toda essa novidade do curso técnico que formava a gente para uma profissão. Além do desejo escravo de fazer a coisa certa, herança das freiras, aquilo não significava muito para mim. O que eu queria mesmo era aprender sobre células, reações químicas e forças centrífugas. Como seria aprender tudo aquilo?

Entrei no prédio tomada pelo desafio e encanto do mistério. Minha irmã me deixou no laboratório de biologia, minha primeira aula. A luz entrava pelas janelas de vidro, refletindo sobre os instrumentos metálicos alinhados em cima das bancadas de azulejos brancos. Era pura ficção científica! Quais mistérios desvendaria ali? O sinal de entrada tocou e os estudantes começaram a entrar. Fiquei de pé, do lado de uma banqueta, sem saber se deveria ou não me sentar. À minha volta, meninos e meninas com olhares tão indagadores quanto os meus. Os meninos eram menores do que eu imaginava, e um pouco desengonçados; mas não fazia diferença: ali éramos todos iguais na nossa iniciação. Foi somente no pátio da escola e nas festas nos finais de semana que nossas inquietantes diferenças reapareceriam e que os meninos teriam seu lugar especial.

O professor entrou na sala. E com a maestria daqueles que conhecem e amam seu ofício, nos conduziu pela primeira de muitas descobertas. E é deles, dos professores, que guardo minhas melhores lembranças da sala de aula daquele tempo. Lógico que quando voltei para casa naquele dia, falei uma hora sem parar das cores, espaços e momentos novos, cheios de liberdade. Mas foi o prazer pelo conhecimento que aprendi com aqueles mestres o que realmente permeou todos os caminhos