segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Nariz de Um Focinho do Outro

Outro dia percebi com grande surpresa que meu nariz é igualzinho ao do meu pai! Como é que não havia reparado nisto antes? Não que não goste do meu nariz, aliás gosto muito. Ele tem uma personalidade agregadora. Seu tamanho e forma, um pouco masculinos, prenunciam vitória sobre a adversidade. E o modo como filtra as impurezas, sente a fragrância do mundo, orienta minha intuição, chora lânguido quando estou doente? Ele é quase uma entidade auto-suficiente! E dá para imaginar o abandono de um rosto sem nariz? E o nariz de palhaço então, quem pode ignorar este símbolo infinito?

Meu pai costumava fazer uma brincadeira quando eu era pequena: apertava o meu nariz entre os dedos indicador e médio, puxando-o para fora. E com o polegar no meio dos dedos, dizia-me "Arranquei seu nariz!” Depois da minha cara de surpresa devolvia-me o nariz, pressionando novamente os dedos sobre meu nariz. Foram muitos anos desta brincadeira e mesmo depois de não acreditar mais nele ainda gostava desta ‘mágica’.

Fiquei mesmo pasma de nunca ter me dado conta do nosso parentesco nasal. Aí me perguntei, será que temos mais coisas em comum? Pensei imediatamente na maneira como meu pai mete o nariz onde não é chamado, na intenção de ajudar todo mundo. Torci o nariz quando me dei conta de que muitas das minhas escolhas profissionais beneficiavam o próximo.

Meu pai do céu, como é que não conseguia ver esta semelhança um palmo na frente do meu nariz? Não que eu queira franzir o nariz aos meus antepassados como na juventude. Naquele tempo, depois das nuvens cinzas da adolescência, achava-me senhora do meu nariz. Mas a necessidade de conquista diante do limite temporal me agoniava. Uma única vida não parecia suficiente para tudo o que eu queria realizar. Já tinha certeza que ia dar com o nariz na porta quando uma maternidade tardia redirecionou minha vida e a do meu pai também; um neto foi com certeza meu melhor presente para ele. E hoje ele repete a mesma brincadeira do nariz com meu filho, que fica igualmente maravilhado.

Com a proximidade da meia idade passei a pensar no que farei com todos os anos que ainda tenho pela frente e a escolher melhor quando colocar meu nariz na janela. Foi só baixar o meu nariz para enxergar o que estava bem embaixo dele. Me aproximo cada vez mais do meu pai e sei onde tenho meu nariz.

A Peruca da Discórdia

Primeiro dia de férias e o Cinca ia lotado para a praia: eu, meus quatro irmãos, meu pais e meus avós maternos. Só não ia mesmo o papagaio que ficava com a vizinha. A Rita, a empregada, ia de ônibus, ‘de motorista particular’ como ela se gabava. O apartamento de quarto e sala acomodava todos. Não era de frente para a praia, mas entre os varais de roupa da pequena varanda lateral, podíamos ver uma faixa de praia, e com sorte, algum transatlântico iluminado à noite.

Assim que entrávamos lá, sentíamos aquele cheiro de tempo guardado. Retiravam-se os lençóis e plásticos que cobriam tudo e a maresia entrava pelas janelas recém abertas. Lembrávamos então porque economizávamos o ano todo para passarmos as férias ali. No quarto havia uma cama de casal e duas de solteiro, um armário que tinha uma cortina de chita como porta, uma cômoda grande, um espelho comprido na parede e, acima dele, um apoio de gesso onde acumpliciavam-se Nossa Senhora Aparecida e Iemanjá. Colchonetes magros saiam debaixo da cama à noite para alojar quem fosse preciso. Na sala, um sofá cama grande e uma mesa de jantar sem luxo davam conta do seu papel. Atrás da porta da cozinha, descansava uma cama dobrada que seria armada depois de encerrado o expediente para a Rita dormir. Ela era a única que dormia sozinha, ‘imagina só que luxo!’, desdenhava meu avô. Para mim, Rita era a princesa de ébano que reinava entre nossas panelas.

Um único banheiro! Para melhorar esta situação, só mesmo meu avô com sua mania de armários, prateleiras, potes e tudo que ajudasse a organizar o espaço. Cada qual com sua utilidade: no armário debaixo da pia iam os produtos de limpeza, acima, os de higiene, um copo para as escovas de dentes e outro para as dentaduras, ganchos para as toalhas, para os maiôs molhados, tudo muito bem pensado e resolvido.

Foi aí que surgiu o problema: não havia lugar para colocar a peruca de cabelos lisos de Rita à noite. A cabeça de isopor ficara em casa e agora era preciso um novo suporte. ‘Que besteira, prá que isso, todo mundo sabe que ela tem cabelo ruim’, resmungava meu avô irritado em ter que mexer na arrumação do apartamento. É que ele não entendia que uma princesa precisa se enfeitar; por isso usava peruca, colar conforme as pulseiras, saia rodada, blusa florida, tudo muito dengoso para combinar com ela. E Rita esperava paciente uma solução para o seu problema. Todos os cantos possíveis do quarto e da sala já estavam ocupados; na cozinha nem pensar, lugar de cabelo é no banheiro mesmo! Muito a contragosto, meu avô arrumou um vasilhame de vidro como suporte, e assim a peruca se hospedou espremida na prateleira sobre o vaso sanitário. De tempos em tempos ele se relembrava da peruca e resmungava qualquer coisa sozinho. Mas fora isto, tudo parecia que continuaria como sempre. As manhãs longas na praia entre castelos de areia e banhos mornos salgados, a queijadinha do seu Ferreira, o peixe com molho de camarão da Rita, o carteado entre os adultos, os passeios no calçadão à noite, o cheiro de chapéu de sol à procura de navios em festa, meu pai nos fins de semana, tudo se repetindo magicamente.

Até que naquela manhã Rita deixou cair o suporte da peruca no vaso sanitário, que se partiu imediatamente num estrondo medonho. Assim que meu avô entrou no banheiro, ficou com o rosto vermelho e começou a gesticular as mãos italianas antes mesmo de abrir a boca, talvez em busca de ar. Aí então explodiu numa única sentença: ‘A culpada de tudo isto é a princesa Isabel!’ E saiu fulminante pela porta, levando consigo um pedaço do vaso quebrado. Só muitos anos mais tarde fui saber quem era a tal princesa, e o que ela tinha a ver com a Rita. Acho que ela também não tinha aprendido aquilo na escola já que nem o primário havia terminado. Mas uma temperança ancestral lhe ensinara a ficar quieta. Ademais, não havia cola que remendasse os danos que ela havia sofrido. Vestindo sua majestosa peruca, Rita tomou o ônibus de volta para a cidade no final da tarde e nunca mais voltou a trabalhar em nossa casa.