domingo, 14 de setembro de 2008

E Eu?

- Em nome do padre, do filho, e do espírito santo, amém!
- Perdão padre, pois eu pequei.
- O que foi, minha filha?
- Desejei que minha irmã perdesse o bebê.
- Continue...
- Tantos anos tentando engravidar, e ela nem casada é!
- O que sua família acha de tudo isto?
- Não falam de outra coisa. Tá todo mundo tricotando roupinhas, escolhendo nome, um nojo; quando vejo sua barriga exibida, de fora, crescendo, tenho vontade de sair correndo. É dor quente, desassossegada, um fogo do capeta que me queima e seca ainda mais o ventre.
- Não fale assim, minha filha. Toda criança é uma benção de Deus.
- Eu só sei é que não consigo controlar os nervos, choro à toa, e ninguém nem percebe que eu existo. Às vezes, quando minhas idéias clareiam um pouco, tento até gostar dessa criança, afinal é meu sobrinho. E é menino, já pensou? Primeiro neto e homem, imagina só o que vai ser isto? Não vai dar não. Já falei para o Clodoaldo que quero ir embora para o interior. Não dizem que o que os olhos não veem, o coração não sente? Pois eu sumo daqui e ninguém nunca mais tem notícias minhas. Eles que fiquem com ela!
- Calma, minha filha. Depois dele, outros netos virão, sua vez chegará. É preciso ter fé.
- Fé? Eu ando muito desacorçoada com Deus; o que será que eu fiz de tão errado para merecer este castigo? Passo horas queimando os miolos, onde foi que eu errei? Justo eu que sempre penso em tudo!
- Pois pense agora na sua irmã que vai precisar do seu apoio, criar um filho sozinha não é fácil.
- Ah, é? Ela que tivesse pensado nisso antes de engravidar. Eu é que não vou criar filho de ninguém. Sempre a mesma coisa, Clara, você é a mais velha; Clara, cuida da sua irmã; Clara, você tem que dar o exemplo. Chega! E eu? Quem é que cuida de mim?
- Deus, minha filha, Deus. Reze agora dez pai-nossos e dez ave-marias.