domingo, 31 de agosto de 2008

Sobre Rodas

Cheguei em casa já depois de meio dia. Seis meses morando sozinho, e ainda não me acostumara a minha existência naquela sala. Tudo ali me sufocava, os móveis, o ar, as paredes. Predadores eternos da minha liberdade! Precisava de ar. Esbarrei na mesa com a cadeira enquanto deslizava a caminho da varanda. De cima dela caiu um encarte de propaganda, estatelando-se no chão aberto ao meio. Bem no centro havia uma bicicleta vermelha reluzindo de vida. Relembrei, letra por letra, uma carta que havia escrito há treze anos. Senti uma vibração no pescoço como um guizo de cobra. Inútil, não havia defesa contra aquela memória; restava-me só o frio gelado na alma.

‘Querido Papai Noel,

Este ano quero ganhar uma bicicleta vermelha grande, sem rodinhas. Fui bem bonzinho. Só às vezes não consegui obedecer meus pais e ficar quietinho; é que gosto muito, muito de correr e sentir o vento no rosto.
Prometo que vou melhorar.

Obrigado,

Beto
7 anos’

E meu pedido foi atendido.

- Eu seguro aqui atrás, você dá um impulso com o pé direito, depois eu solto.
- Não pai, não precisa, me deixa que eu vou sozinho.

Saí pedalando, pernas fortes e cabelos vermelhos feito alazão que já nasceu dono de sua aventura. Parava só quando sentia o rosto gelado e a alma plena. Descansava só para recomeçar. Anos de trilhas e manobras impetuosas sobre minha bicicleta avultavam meu destino adolescente. Muitos saltos se seguiram até que um salto a mais me alçou num vôo escuro no nada. Nunca mais palpitaria a emoção de existir.

Uma lágrima extemporânea acordou minha mão que se apoiava sobre minha perna magra e sem memória. Ajeitei a roda da cadeira e continuei deslizando para a varanda. No rosto, o vento frio que entrava.