domingo, 24 de agosto de 2008

Chuvarada

Dormia sozinho na sala quando me arrebatou sem aviso prévio o primeiro estrondo. CABRUM! Cada célula em mim se acordou e dois segundos depois estava debaixo do sofá. Sem tempo de sentir a dor do corpo espremido, vi de longo um clarão dos grandes...CABRUMMMM! Era a luz rasgando o som e meus ouvidos. Saí correndo em círculos em volta da mesinha no centro da sala tentando me livrar do fragor medonho que me invadira por dentro. Da mesinha para cada canto da sala e para detrás da poltrona, fui levando ao chão vasos, aquário, abajur, elefante da sorte, cinzeiro e tudo o mais que estivesse no caminho do meu furor. Fremia cegamente quando a próxima rajada me atingiu sem piedade. CABRUM! CABRUM! CABRUM! Corri em vão para a porta, cravando lá as testemunhas da minha cólera surda. De volta para debaixo do sofá. Agora a água brotava do telhado enquanto os raios iam se dizimando. Meu corpo tremia débil, ecoando medo e dor. Cansado, adormeci novamente.

Bem Temperado

Dona Ana carregava sem pressa seu corpo opulento, arrastando os chinelos velhos pelo chão encerado da cozinha. Passava a maior parte do tempo numa conversa miúda com a pia, o fogão e geladeira, um ao lado do outro. Às vezes levantava os olhos avisados para espiar pela janela a garotada lá fora. Eu e o bebê ficávamos dentro de casa. Sentada no chão da cozinha, eu ficava imitando aquela negra velha e sisuda que trabalhava lá em casa, e assim fui aprendendo a temperar muito mais que a comida. Não me lembro dela ter me dirigido a palavra uma única vez a não ser para me enxotar de lá. Louro, que ficava numa gaiola do outro lado às vezes lhe imitava os murmúrios: - Falta sal! Falta sal! Falta sal! Ela trovejava um pouco, mas logo voltava para a calmaria de suas panelas. Toda segunda-feira batia cebola com cheiro verde, sal e óleo que guardava num pote de vidro dentro da geladeira. Dali tirava o tempero do feijão, arroz, verduras e misturas para a semana inteira. Logo cedo lavava e depois picava na tábua de madeira o que fosse preciso: verduras, frutas e carnes. Depois era a festa do fogão de esmalte de ágata branco que ficava sob sua vigilância até tudo ficar pronto. Mexia nas panelas de ferro com sua fiel e contemporânea colher de pau, pegando um pouco da comida que punha na palma da mão para provar o sal. Seguia orquestrando o sabor e a textura até atingir a perfeição. Aí sim, das panelas às travessas, à mesa e à boca da criançada. Enquanto comiam, ela lavava a louça. Depois de tudo aquietado, fazia seu prato e sentava-se na cabeceira da mesa para comer na mesma cadência com que cozinhara. Brotavam-lhe alguns suspiros exclusivos. E aí o Louro esganiçava: ‘Cadê a janta, Ana?’

Belas adormecidas

Adorávamos dormir no apartamento de meus avós, no centro da cidade. Eu, minhas irmãs e meus avós dividíamos o quarto deles. A porta ficava aberta, caso alguém precisasse ir ao banheiro, do lado de fora do quarto. Nas duas mesinhas laterais, meu avô descansava o radinho de pilha depois de ouvir as notícias e minha avó deixava um copo d’água para tomar os remédios do coração.
Havia também uma cômoda encostada na parede atrás da porta com cinco gavetas onde minha avó guardava suas roupas. Sobre a cômoda, muitos perfumes, alguns franceses que guardava para ocasiões especiais. Um grande armário de cinco portas completava o mobiliário do quarto. Ali guardava-se tudo que não tivesse lugar no apartamento, desde roupas velhas até louça e outros objetos. Sobre a cabeceira, uma natureza morta do mesmo tom que a colcha de chenile. Aninhadas nos colchonetes colocados um de cada lado da cama, ficávamos escutando os barulhos da rua. Cada vez que o farol abria, ouvíamos o ronco dos motores, e no teto as luzes dos faróis formavam desenhos simétricos que se alongavam até sumirem. Às vezes ouvíamos conversas ou brigas na rua. Meus avós então contavam estórias de travestis ou prostitutas que freqüentavam as casas noturnas da rua. Botas cumpridas, silicone e um homem eram os sonhos passionais daquelas cinderelas que embalavam nosso sono.