domingo, 3 de agosto de 2008

Reconhecimento

A mãe tinha ficado em casa na companhia dos sedativos. Tinha que ser uma de nós – eu não quero ir, nem eu, então vamos as três! O atendente era um jovem que fazia seu trabalho sem maldade nem bondade. Seguiu descendo os degraus logo à frente. Acompanhamos de braços dados sua sombra fria. Mesmo sem poder, tive medo. Não sei as irmãs, era minha primeira vez. As paredes laterais descendentes eram de um cinza que ia se desbotando à medida que descíamos cada degrau, assim como minha coragem que se esvaia devagar enquanto meu coração batia depressa. Chegamos ao andar inferior. Uma porta dupla de vidro canelado há uns dez passos do pé da escada velava o interior da sala. Não havia visão, não havia volta, não havia vida. O atendente empurrou com as mãos as duas partes da porta que permaneceu aberta. Do lado de fora o vimos ali parado para sempre. Estava estendido sobre uma mesa de metal fria, o corpo coberto por um pano verde, só a cabeça calva de fora. O algodão nas narinas não deixava dúvida sobre sua condição extinta. As irmãs ataram um choro e gemeram de volta para a escada. Fiquei uns segundos mais, agora sem medo, como se aquela cumplicidade com o deixar de ser pudesse perpetuar minha existência. Com um movimento rápido de cabeça, sem palavras, estava reconhecida minha ancestralidade.