domingo, 23 de novembro de 2008

Economias

A mesada em casa era bem enxuta, só o dinheiro da condução e do lanche. Roupas e outras despesas eram feitas através da mãe para os pequenos, e os mais velhos pediam diretamente para o pai. Detestava pedir dinheiro para ele, principalmente a parte que tinha que explicar em que iria gastá-lo. Então economizava como podia, um lanche sem bebida, voltava a pé para casa para guardar o dinheiro do ônibus, e assim ia juntando algum dinheiro que era só meu para gastar como quisesse, sem dar satisfação à ninguém. Aos doze anos vivia o embrião da independência feminina.

Aquele era um dia especial porque eu havia ganho uma carteira nova para guardar meu pecúlio. Ela era preta de verniz, um bolso lateral com zíper para as moedas. Linda! Terças e quintas eram tardes de aula de inglês e era preciso duas conduções para voltar para casa. Ou quem sabe só uma...O primeiro ônibus estava lotado. Fazia um calor martirizante, as pessoas fumegavam suas almas ali dentro. Segurava-me no cano do corredor, espremida entre os mais altos. Sentia-se uma onda de pressão passando por trás cada vez que alguém tentava chegar à frente. Olhava-se feio para trás, alguns resmungavam. Não adiantava nada. O cobrador, um sujeito grosseiro e mal-humorado repetia com uma voz carrascal, ‘Vamos lá pessoal, um passinho à frente’, e ouvia-se mais uma vez o som metálico da catraca. A tempestade anunciada despencou. As janelas foram fechadas às pressas e aí então... o cheiro de cachorro molhado...horrível; sentia uma ânsia vazia, sem fuga. Foram uns quinze minutos de janela fechada e trânsito parado até a chuva cessar. O motorista reclamava com o cobrador num diálogo rotineiro deles e ninguém que se intrometesse naquele ritual. Finalmente o ar fresco das janelas recém abertas nos devolvia alguma sanidade. Decidi descer um ponto antes do final, era melhor ir andando.

Fui caminhando, pensando se iria ou não tomar a segunda condução. Enfiei a mão na bolsa buscando minha carteira, revirei tudo e ela não estava lá. ’Não é possível!’ Decidi voltar ao ônibus; agora já deveria ter chegado ao ponto final. Vi de longe as últimas pessoas descendo e tive um pouco de medo de entrar lá. Será que encontraria alguém? E a minha carteira? O que eu iria falar? Não era como procurar por alguma coisa na escola. Não conhecia ninguém ali. E eles eram tão estranhos. Ainda assim, fui em frente, olhando pela calçada torcendo para encontrar minha carteira pelo caminho. Mas nada. Cheguei. Subi lentamente dois degraus da escada traseira, parei, o coração descompassado. O cobrador estava levantando-se como quem havia se agachado para pegar alguma coisa e o motorista estava de pé lá na frente, voltado para o cobrador, como se estivesse a ouvir-lhe alguma surpresa. O ar ainda estava quente e carregado. Havia muita sujeira no chão. De onde eu estava, via papéis de balas e outras embalagens, misturadas às pegadas de barro. Uma roupinha de boneca abandonada ao lado de um banco. Olharam surpresos para mim quando falei timidamente:

- Acho que deixei cair minha carteira no ônibus... Nem tive coragem de perguntar se a tinham achado. Ou talvez já soubesse que nem era preciso perguntar. Algumas coisas são aprendidas sem palavras.

Mantendo o corpo para frente, o cobrador virou a cabeça e respondeu seco mesmo antes de eu terminar de falar:

- Aqui não achamos nada não! O motorista permaneceu onde estava, imóvel na sua cumplicidade.

Desci a escada sem falar nada. Comecei a andar lentamente para casa, sentindo um peso novo e desconhecido por cima dos ombros. A chuva voltou mais fraca e a água foi chorando, fria, minha dor impotente.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Nariz de Um Focinho do Outro

Outro dia percebi com grande surpresa que meu nariz é igualzinho ao do meu pai! Como é que não havia reparado nisto antes? Não que não goste do meu nariz, aliás gosto muito. Ele tem uma personalidade agregadora. Seu tamanho e forma, um pouco masculinos, prenunciam vitória sobre a adversidade. E o modo como filtra as impurezas, sente a fragrância do mundo, orienta minha intuição, chora lânguido quando estou doente? Ele é quase uma entidade auto-suficiente! E dá para imaginar o abandono de um rosto sem nariz? E o nariz de palhaço então, quem pode ignorar este símbolo infinito?

Meu pai costumava fazer uma brincadeira quando eu era pequena: apertava o meu nariz entre os dedos indicador e médio, puxando-o para fora. E com o polegar no meio dos dedos, dizia-me "Arranquei seu nariz!” Depois da minha cara de surpresa devolvia-me o nariz, pressionando novamente os dedos sobre meu nariz. Foram muitos anos desta brincadeira e mesmo depois de não acreditar mais nele ainda gostava desta ‘mágica’.

Fiquei mesmo pasma de nunca ter me dado conta do nosso parentesco nasal. Aí me perguntei, será que temos mais coisas em comum? Pensei imediatamente na maneira como meu pai mete o nariz onde não é chamado, na intenção de ajudar todo mundo. Torci o nariz quando me dei conta de que muitas das minhas escolhas profissionais beneficiavam o próximo.

Meu pai do céu, como é que não conseguia ver esta semelhança um palmo na frente do meu nariz? Não que eu queira franzir o nariz aos meus antepassados como na juventude. Naquele tempo, depois das nuvens cinzas da adolescência, achava-me senhora do meu nariz. Mas a necessidade de conquista diante do limite temporal me agoniava. Uma única vida não parecia suficiente para tudo o que eu queria realizar. Já tinha certeza que ia dar com o nariz na porta quando uma maternidade tardia redirecionou minha vida e a do meu pai também; um neto foi com certeza meu melhor presente para ele. E hoje ele repete a mesma brincadeira do nariz com meu filho, que fica igualmente maravilhado.

Com a proximidade da meia idade passei a pensar no que farei com todos os anos que ainda tenho pela frente e a escolher melhor quando colocar meu nariz na janela. Foi só baixar o meu nariz para enxergar o que estava bem embaixo dele. Me aproximo cada vez mais do meu pai e sei onde tenho meu nariz.

A Peruca da Discórdia

Primeiro dia de férias e o Cinca ia lotado para a praia: eu, meus quatro irmãos, meu pais e meus avós maternos. Só não ia mesmo o papagaio que ficava com a vizinha. A Rita, a empregada, ia de ônibus, ‘de motorista particular’ como ela se gabava. O apartamento de quarto e sala acomodava todos. Não era de frente para a praia, mas entre os varais de roupa da pequena varanda lateral, podíamos ver uma faixa de praia, e com sorte, algum transatlântico iluminado à noite.

Assim que entrávamos lá, sentíamos aquele cheiro de tempo guardado. Retiravam-se os lençóis e plásticos que cobriam tudo e a maresia entrava pelas janelas recém abertas. Lembrávamos então porque economizávamos o ano todo para passarmos as férias ali. No quarto havia uma cama de casal e duas de solteiro, um armário que tinha uma cortina de chita como porta, uma cômoda grande, um espelho comprido na parede e, acima dele, um apoio de gesso onde acumpliciavam-se Nossa Senhora Aparecida e Iemanjá. Colchonetes magros saiam debaixo da cama à noite para alojar quem fosse preciso. Na sala, um sofá cama grande e uma mesa de jantar sem luxo davam conta do seu papel. Atrás da porta da cozinha, descansava uma cama dobrada que seria armada depois de encerrado o expediente para a Rita dormir. Ela era a única que dormia sozinha, ‘imagina só que luxo!’, desdenhava meu avô. Para mim, Rita era a princesa de ébano que reinava entre nossas panelas.

Um único banheiro! Para melhorar esta situação, só mesmo meu avô com sua mania de armários, prateleiras, potes e tudo que ajudasse a organizar o espaço. Cada qual com sua utilidade: no armário debaixo da pia iam os produtos de limpeza, acima, os de higiene, um copo para as escovas de dentes e outro para as dentaduras, ganchos para as toalhas, para os maiôs molhados, tudo muito bem pensado e resolvido.

Foi aí que surgiu o problema: não havia lugar para colocar a peruca de cabelos lisos de Rita à noite. A cabeça de isopor ficara em casa e agora era preciso um novo suporte. ‘Que besteira, prá que isso, todo mundo sabe que ela tem cabelo ruim’, resmungava meu avô irritado em ter que mexer na arrumação do apartamento. É que ele não entendia que uma princesa precisa se enfeitar; por isso usava peruca, colar conforme as pulseiras, saia rodada, blusa florida, tudo muito dengoso para combinar com ela. E Rita esperava paciente uma solução para o seu problema. Todos os cantos possíveis do quarto e da sala já estavam ocupados; na cozinha nem pensar, lugar de cabelo é no banheiro mesmo! Muito a contragosto, meu avô arrumou um vasilhame de vidro como suporte, e assim a peruca se hospedou espremida na prateleira sobre o vaso sanitário. De tempos em tempos ele se relembrava da peruca e resmungava qualquer coisa sozinho. Mas fora isto, tudo parecia que continuaria como sempre. As manhãs longas na praia entre castelos de areia e banhos mornos salgados, a queijadinha do seu Ferreira, o peixe com molho de camarão da Rita, o carteado entre os adultos, os passeios no calçadão à noite, o cheiro de chapéu de sol à procura de navios em festa, meu pai nos fins de semana, tudo se repetindo magicamente.

Até que naquela manhã Rita deixou cair o suporte da peruca no vaso sanitário, que se partiu imediatamente num estrondo medonho. Assim que meu avô entrou no banheiro, ficou com o rosto vermelho e começou a gesticular as mãos italianas antes mesmo de abrir a boca, talvez em busca de ar. Aí então explodiu numa única sentença: ‘A culpada de tudo isto é a princesa Isabel!’ E saiu fulminante pela porta, levando consigo um pedaço do vaso quebrado. Só muitos anos mais tarde fui saber quem era a tal princesa, e o que ela tinha a ver com a Rita. Acho que ela também não tinha aprendido aquilo na escola já que nem o primário havia terminado. Mas uma temperança ancestral lhe ensinara a ficar quieta. Ademais, não havia cola que remendasse os danos que ela havia sofrido. Vestindo sua majestosa peruca, Rita tomou o ônibus de volta para a cidade no final da tarde e nunca mais voltou a trabalhar em nossa casa.

domingo, 14 de setembro de 2008

E Eu?

- Em nome do padre, do filho, e do espírito santo, amém!
- Perdão padre, pois eu pequei.
- O que foi, minha filha?
- Desejei que minha irmã perdesse o bebê.
- Continue...
- Tantos anos tentando engravidar, e ela nem casada é!
- O que sua família acha de tudo isto?
- Não falam de outra coisa. Tá todo mundo tricotando roupinhas, escolhendo nome, um nojo; quando vejo sua barriga exibida, de fora, crescendo, tenho vontade de sair correndo. É dor quente, desassossegada, um fogo do capeta que me queima e seca ainda mais o ventre.
- Não fale assim, minha filha. Toda criança é uma benção de Deus.
- Eu só sei é que não consigo controlar os nervos, choro à toa, e ninguém nem percebe que eu existo. Às vezes, quando minhas idéias clareiam um pouco, tento até gostar dessa criança, afinal é meu sobrinho. E é menino, já pensou? Primeiro neto e homem, imagina só o que vai ser isto? Não vai dar não. Já falei para o Clodoaldo que quero ir embora para o interior. Não dizem que o que os olhos não veem, o coração não sente? Pois eu sumo daqui e ninguém nunca mais tem notícias minhas. Eles que fiquem com ela!
- Calma, minha filha. Depois dele, outros netos virão, sua vez chegará. É preciso ter fé.
- Fé? Eu ando muito desacorçoada com Deus; o que será que eu fiz de tão errado para merecer este castigo? Passo horas queimando os miolos, onde foi que eu errei? Justo eu que sempre penso em tudo!
- Pois pense agora na sua irmã que vai precisar do seu apoio, criar um filho sozinha não é fácil.
- Ah, é? Ela que tivesse pensado nisso antes de engravidar. Eu é que não vou criar filho de ninguém. Sempre a mesma coisa, Clara, você é a mais velha; Clara, cuida da sua irmã; Clara, você tem que dar o exemplo. Chega! E eu? Quem é que cuida de mim?
- Deus, minha filha, Deus. Reze agora dez pai-nossos e dez ave-marias.

domingo, 7 de setembro de 2008

Os Primeiros Goles

Havia uma menina mais velha que ela bebendo água no bebedouro. Colocou-se em fila, aproveitando para observá-la, vendo exatamente o que teria que fazer com as mãos e a boca. Ainda bem que não havia ninguém por lá. Chegou sua vez! Levantou os pezinhos o máximo que pode e esticou as perninhas curtas. As marias-chiquinhas balançavam em pequenos movimentos circulares, em sintonia com a agitação do seu coração. Apertou o botão com o dedo indicador esquerdo, e nada. Tentou o polegar, sem sucesso. Baixou os pezinhos para descansar, relaxando mãos e braços. Olhou em volta para certificar-se de que não havia mesmo ninguém. Talvez fosse melhor ir embora; resolveu ficar. Respirou fundo, levantou os pezinhos ainda mais alto, apertou o botão com o polegar esquerdo, desta vez pressionando-o com toda a mão direita. Força total! Sentiu um jato rápido de água subir, penetrando-lhe as narinas, num susto-gozo. De novo! Agora sim, fez um biquinho de passarinho e sorveu o néctar da fonte. O que não dava conta de absorver, corria-lhe pelo queixo, terminando em desenhos abstratos em sua camiseta.

- Professora, posso ir beber água?
- De novo, Júlia?!

domingo, 31 de agosto de 2008

Sobre Rodas

Cheguei em casa já depois de meio dia. Seis meses morando sozinho, e ainda não me acostumara a minha existência naquela sala. Tudo ali me sufocava, os móveis, o ar, as paredes. Predadores eternos da minha liberdade! Precisava de ar. Esbarrei na mesa com a cadeira enquanto deslizava a caminho da varanda. De cima dela caiu um encarte de propaganda, estatelando-se no chão aberto ao meio. Bem no centro havia uma bicicleta vermelha reluzindo de vida. Relembrei, letra por letra, uma carta que havia escrito há treze anos. Senti uma vibração no pescoço como um guizo de cobra. Inútil, não havia defesa contra aquela memória; restava-me só o frio gelado na alma.

‘Querido Papai Noel,

Este ano quero ganhar uma bicicleta vermelha grande, sem rodinhas. Fui bem bonzinho. Só às vezes não consegui obedecer meus pais e ficar quietinho; é que gosto muito, muito de correr e sentir o vento no rosto.
Prometo que vou melhorar.

Obrigado,

Beto
7 anos’

E meu pedido foi atendido.

- Eu seguro aqui atrás, você dá um impulso com o pé direito, depois eu solto.
- Não pai, não precisa, me deixa que eu vou sozinho.

Saí pedalando, pernas fortes e cabelos vermelhos feito alazão que já nasceu dono de sua aventura. Parava só quando sentia o rosto gelado e a alma plena. Descansava só para recomeçar. Anos de trilhas e manobras impetuosas sobre minha bicicleta avultavam meu destino adolescente. Muitos saltos se seguiram até que um salto a mais me alçou num vôo escuro no nada. Nunca mais palpitaria a emoção de existir.

Uma lágrima extemporânea acordou minha mão que se apoiava sobre minha perna magra e sem memória. Ajeitei a roda da cadeira e continuei deslizando para a varanda. No rosto, o vento frio que entrava.

domingo, 24 de agosto de 2008

Chuvarada

Dormia sozinho na sala quando me arrebatou sem aviso prévio o primeiro estrondo. CABRUM! Cada célula em mim se acordou e dois segundos depois estava debaixo do sofá. Sem tempo de sentir a dor do corpo espremido, vi de longo um clarão dos grandes...CABRUMMMM! Era a luz rasgando o som e meus ouvidos. Saí correndo em círculos em volta da mesinha no centro da sala tentando me livrar do fragor medonho que me invadira por dentro. Da mesinha para cada canto da sala e para detrás da poltrona, fui levando ao chão vasos, aquário, abajur, elefante da sorte, cinzeiro e tudo o mais que estivesse no caminho do meu furor. Fremia cegamente quando a próxima rajada me atingiu sem piedade. CABRUM! CABRUM! CABRUM! Corri em vão para a porta, cravando lá as testemunhas da minha cólera surda. De volta para debaixo do sofá. Agora a água brotava do telhado enquanto os raios iam se dizimando. Meu corpo tremia débil, ecoando medo e dor. Cansado, adormeci novamente.

Bem Temperado

Dona Ana carregava sem pressa seu corpo opulento, arrastando os chinelos velhos pelo chão encerado da cozinha. Passava a maior parte do tempo numa conversa miúda com a pia, o fogão e geladeira, um ao lado do outro. Às vezes levantava os olhos avisados para espiar pela janela a garotada lá fora. Eu e o bebê ficávamos dentro de casa. Sentada no chão da cozinha, eu ficava imitando aquela negra velha e sisuda que trabalhava lá em casa, e assim fui aprendendo a temperar muito mais que a comida. Não me lembro dela ter me dirigido a palavra uma única vez a não ser para me enxotar de lá. Louro, que ficava numa gaiola do outro lado às vezes lhe imitava os murmúrios: - Falta sal! Falta sal! Falta sal! Ela trovejava um pouco, mas logo voltava para a calmaria de suas panelas. Toda segunda-feira batia cebola com cheiro verde, sal e óleo que guardava num pote de vidro dentro da geladeira. Dali tirava o tempero do feijão, arroz, verduras e misturas para a semana inteira. Logo cedo lavava e depois picava na tábua de madeira o que fosse preciso: verduras, frutas e carnes. Depois era a festa do fogão de esmalte de ágata branco que ficava sob sua vigilância até tudo ficar pronto. Mexia nas panelas de ferro com sua fiel e contemporânea colher de pau, pegando um pouco da comida que punha na palma da mão para provar o sal. Seguia orquestrando o sabor e a textura até atingir a perfeição. Aí sim, das panelas às travessas, à mesa e à boca da criançada. Enquanto comiam, ela lavava a louça. Depois de tudo aquietado, fazia seu prato e sentava-se na cabeceira da mesa para comer na mesma cadência com que cozinhara. Brotavam-lhe alguns suspiros exclusivos. E aí o Louro esganiçava: ‘Cadê a janta, Ana?’

Belas adormecidas

Adorávamos dormir no apartamento de meus avós, no centro da cidade. Eu, minhas irmãs e meus avós dividíamos o quarto deles. A porta ficava aberta, caso alguém precisasse ir ao banheiro, do lado de fora do quarto. Nas duas mesinhas laterais, meu avô descansava o radinho de pilha depois de ouvir as notícias e minha avó deixava um copo d’água para tomar os remédios do coração.
Havia também uma cômoda encostada na parede atrás da porta com cinco gavetas onde minha avó guardava suas roupas. Sobre a cômoda, muitos perfumes, alguns franceses que guardava para ocasiões especiais. Um grande armário de cinco portas completava o mobiliário do quarto. Ali guardava-se tudo que não tivesse lugar no apartamento, desde roupas velhas até louça e outros objetos. Sobre a cabeceira, uma natureza morta do mesmo tom que a colcha de chenile. Aninhadas nos colchonetes colocados um de cada lado da cama, ficávamos escutando os barulhos da rua. Cada vez que o farol abria, ouvíamos o ronco dos motores, e no teto as luzes dos faróis formavam desenhos simétricos que se alongavam até sumirem. Às vezes ouvíamos conversas ou brigas na rua. Meus avós então contavam estórias de travestis ou prostitutas que freqüentavam as casas noturnas da rua. Botas cumpridas, silicone e um homem eram os sonhos passionais daquelas cinderelas que embalavam nosso sono.

domingo, 3 de agosto de 2008

Reconhecimento

A mãe tinha ficado em casa na companhia dos sedativos. Tinha que ser uma de nós – eu não quero ir, nem eu, então vamos as três! O atendente era um jovem que fazia seu trabalho sem maldade nem bondade. Seguiu descendo os degraus logo à frente. Acompanhamos de braços dados sua sombra fria. Mesmo sem poder, tive medo. Não sei as irmãs, era minha primeira vez. As paredes laterais descendentes eram de um cinza que ia se desbotando à medida que descíamos cada degrau, assim como minha coragem que se esvaia devagar enquanto meu coração batia depressa. Chegamos ao andar inferior. Uma porta dupla de vidro canelado há uns dez passos do pé da escada velava o interior da sala. Não havia visão, não havia volta, não havia vida. O atendente empurrou com as mãos as duas partes da porta que permaneceu aberta. Do lado de fora o vimos ali parado para sempre. Estava estendido sobre uma mesa de metal fria, o corpo coberto por um pano verde, só a cabeça calva de fora. O algodão nas narinas não deixava dúvida sobre sua condição extinta. As irmãs ataram um choro e gemeram de volta para a escada. Fiquei uns segundos mais, agora sem medo, como se aquela cumplicidade com o deixar de ser pudesse perpetuar minha existência. Com um movimento rápido de cabeça, sem palavras, estava reconhecida minha ancestralidade.

sábado, 24 de maio de 2008

Vinicius de Moraes no meu banheiro

Já tive compulsão por comprar várias coisas: cosméticos, sapatos, bijuterias; mas a única que resiste através do tempo é comprar livros. Compro de tudo quanto é jeito: Tenho lista de presentes nas livrarias, compro livros nas bancas de jornal, sebos, metrô, Internet. Cada jeito um deleito. Folhear vários livros na livraria, para finalmente eleger os favoritos; receber um pacote de livros comprados através da Internet é uma recompensa dos avanços da tecnologia; e garimpar livro em sebo, tem coisa melhor? Já me desfiz de muitos livros no passado, achava que uma vez lidos, não precisava mais deles. Minha vida de cigana também colaborou para tal desfecho. Mas hoje não, guardo meus livros como relíquias de conhecimento. Como se conseguisse aprender o segredo dos mestres através de seus livros, conquistando companheiros, cúmplices nesta solitária viagem das escrituras. O simples fato de ter os livros e poder lê-los ou pesquisá-los sempre que quiser já me aquieta a alma.

Agora dei para ler no banheiro, e o culpado é o Vinicius de Moraes. O leitor agora deve estar se perguntando o que é que o poeta tem a ver com o meu banheiro. Vamos lá ver se consigo explicar sem tornar esta narrativa indiscreta ou repulsiva. É que gosto de ter livros espalhados por todos os cantos da casa, e na bolsa para uma eventual fila ou sala de espera, e no carro para o caso de um congestionamento, assim como também procuro ter sempre à mão papel e caneta para anotar alguma idéia que me venha à cabeça; mas banheiro nunca foi lugar de leitura para mim. Até que comprei ‘Para Viver Um Grande Amor’, crônicas e poemas de Vinicius de Moraes, da coleção da Folha de São Paulo. Chegando em casa com as compras, precisei ir ao banheiro. Como a curiosidade de folhear o livro era tão urgente quanto a necessidade fisiológica, tive que conciliar as duas atividades.

Fui pega totalmente de surpresa pelas crônicas do autor, que até então desconhecia. São deliciosas! Ele transita entre os mais inusitados temas com muita leveza, graça, e estilo. Uma verdadeira inspiração. E gostei tanto da experiência, que lá ficou o livro. Nunca leio mais que um poema e uma crônica a cada visita. De alguma forma tenho certeza que minha experiência rendeu ao poeta um largo sorriso de onde quer que ele esteja.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Janela em São Paulo

Vejo as mesmas casinhas de bairro neste fim de tarde. Mãe preparando jantar, criançada assistindo televisão ou brigando para não tomar banho, uma velhinha tentando lembrar do que se esqueceu, passarinho fechando o expediente, uma furadeira solitária fora de hora, luzes começando a piscar, uma faixa de verde minguada antes do horizonte de prédios, nuvens acizentadas por todo lado, algumas antenas captando o inevitável, um prédio intruso atrapalhando o horizonte, tudo muito desalinhado. Patético como a gente se contenta com bem pouco, uma janela, um horizonte, e eu aqui empoleirada na minha imaginação.