domingo, 20 de maio de 2007

Terra Molhada

Já não se ouve música nem conversa, finalmente o silêncio desejado. Olhos no horizonte indefinido, eu e meu consorte seguimos caminhando, cada um na sua viagem. Tento confiar meu destino a devaneios de liberdade. Insisto, entretanto, em pensamentos mundanos dos quais preciso me dar férias. Uma estranha sentenciada à clausura dos meus pensamentos, sinto-me mais e mais distante do meu cerne. De repente, o cheiro de terra molhada! Abro minhas janelas. Huuuum! Ressurreição em êxtase! Magnificente, como uma santidade! Entrego-me desarmada às sensações desta regeneração. Célula por célula, tudo se transforma, se abre. Minhas narinas, moribundas, recobram os sentidos com este elixir olfativo. Sem perder tempo, a essência aveludada desliza por minhas narinas e garganta; jorra pulsante em meus pulmões que acordam de um pesadelo seco. Poros e coração relaxam aliviados pelo perfume marrom e enérgico. Odor férreo, descortina meu calor fértil. Minha alma se banha em água benta enquanto meus pés se esparramam no solo macio, úmido e generoso; criam raízes. Aí tudo se encaixa; não há mais dúvidas: faço parte do universo! Os pensamentos são agora lembranças esquecidas deste aroma: a árvore plantada na infância, a horta no fundo do quintal, as flores no canteiro do novo apartamento, as caminhadas no mato de todos os cantos, as tempestades de verão, vestígios penetrantes da minha essência. Ouço nossa respiração compassada. Viro-me para o lado. Nada além de olhares cúmplices anunciam a decisão de continuarmos a caminhada. Ouço pássaros cantando. A terra ainda está molhada.

Outubro 2006