segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Faróis Urbanos

Saio de casa, vidro do carro meio aberto, entra o frescor do meio da manhã. Vai fazer calor mais tarde. Atravesso o cebolinha, primeiro farol. Fecho o vidro. Ligo o ar. Corre, corre, um saquinho de chicletes em cada espelhinho. Estou trabalhando para não roubar. Por favor ajudem. 4 chicletes por R$1,00. Marketing-ameaça, a gente tem que agradecer por não ser roubado. Não compro, não quero, não preciso, não sei o que fazer, não faço. Culpa, raiva, pena, confusão, já nem percebo mais, mas todo dia tudo se repete. Correm para lá e para cá, se arriscam em meio aos carros – uma trabalheira danada. Abre o farol, corre, corre, tiram os saquinhos numa logística incrível, bem a tempo dos carros andarem. Nunca vi nenhum ficar para trás sem o saquinho. Sigo com o carro, abro o vidro, desligo o ar, o trânsito está livre, mas mesmo assim vou por dentro, just in case. Outro farol antes de cruzar a Bandeirantes. Uns cinco garotos se espalham fazendo mágica, escondem e desvendam um lenço da mão, todos iguais. Aceno para não perderem tempo, não tenho dinheiro, mas não faz diferença. Quantos anos têm, dez, doze, não deveriam estar na escola a uma hora dessas? Mas é admirável como eles se esforçam. Será que algum deles vai virar um mágico famoso? Fecho o vidro, ligo o ar, só por precaução, mas eles não têm cara de perigosos. Será que querem ser artistas ou só querem ganhar um troquinho? Sobreviver nesse país é que é a verdadeira arte deles. Meu malabarismo é abrir e fechar o vidro, ligar e desligar o ar, dar ou não dar esmola, sentir pena ou medo, raiva ou culpa? Preciso fazer uma parada antes de chegar ao trabalho. Rua movimentada, cheia de comércio, zona azul. Logo vem um flanelinha. Deixa um trocado que não precisa pôr cartão Dona. Suborno duplo. Desta vez só medo e raiva, sem pena. Geralmente não pago, finco o pé, mas às vezes pago, depende do dia, ou do medo. Pior os flanelinhas que cobram preço fixo para não estragarem seu carro. Aí só raiva. Chego no trabalho, deixo o carro no estacionamento que é muito mais que o meu salário pode pagar, mas correr o risco de ficar sem carro é pior. E na volta pra casa tem mais chiclete, malabarismo, mãe com criança no colo, criança pequena que deveria estar em casa dormindo. Poderia ser meu filho. Aí pena, muita pena, e depois raiva de tudo. Fecho o vidro, ligo o ar.

domingo, 20 de maio de 2007

Terra Molhada

Já não se ouve música nem conversa, finalmente o silêncio desejado. Olhos no horizonte indefinido, eu e meu consorte seguimos caminhando, cada um na sua viagem. Tento confiar meu destino a devaneios de liberdade. Insisto, entretanto, em pensamentos mundanos dos quais preciso me dar férias. Uma estranha sentenciada à clausura dos meus pensamentos, sinto-me mais e mais distante do meu cerne. De repente, o cheiro de terra molhada! Abro minhas janelas. Huuuum! Ressurreição em êxtase! Magnificente, como uma santidade! Entrego-me desarmada às sensações desta regeneração. Célula por célula, tudo se transforma, se abre. Minhas narinas, moribundas, recobram os sentidos com este elixir olfativo. Sem perder tempo, a essência aveludada desliza por minhas narinas e garganta; jorra pulsante em meus pulmões que acordam de um pesadelo seco. Poros e coração relaxam aliviados pelo perfume marrom e enérgico. Odor férreo, descortina meu calor fértil. Minha alma se banha em água benta enquanto meus pés se esparramam no solo macio, úmido e generoso; criam raízes. Aí tudo se encaixa; não há mais dúvidas: faço parte do universo! Os pensamentos são agora lembranças esquecidas deste aroma: a árvore plantada na infância, a horta no fundo do quintal, as flores no canteiro do novo apartamento, as caminhadas no mato de todos os cantos, as tempestades de verão, vestígios penetrantes da minha essência. Ouço nossa respiração compassada. Viro-me para o lado. Nada além de olhares cúmplices anunciam a decisão de continuarmos a caminhada. Ouço pássaros cantando. A terra ainda está molhada.

Outubro 2006